Quem sabe, há de chegar o dia em que serei de
fato livre. Porque me é difícil perceber a liberdade quando sou
prisioneira de mim mesma.
Hoje acordei refletindo sobre
felicidade. Por que as vezes me pego a pensar e a fazer planos para “um
dia feliz”? Penso ser apenas uma questão de contexto e de ego.
Contexto, porque se eu vivesse em uma terra de guerra e de fome, um dia sem mortes e
com comida seria claramente um dia feliz. E uma questão de ego porque
na falta de uma necessidade urgente (como sobrevivência e fome) as
necessitades que restam são as necessidades do ego.
Quem me dera ser livre do ego, e usufruir da abundância que existe sem avaliar as faltas – existem faltas sequer?
Posso procurar a felicidade dos dias em inúmeros lugares, cidades,
países. Posso procurar a felicidade na companhia de inúmeras pessoas,
animais, campos e paisagens. Posso ir e vir a qualquer lugar e a
qualquer lado, e a procura ainda assim irá durar eternamente enquanto
meus limites forem minha própria humanidade.
Por diversas vezes
pensei em me voluntariar para países e situações extremas, onde
residisse a felicidade simples – no sobreviver. E mais uma vez, a minha
felicidade estaria no contexto a minha volta, e não de fato em mim.
O contexto me faria feliz ao perceber que sobrevivi mais um dia.
Quantos dias já sobrevivi até aqui, e quantos dias de fato me fizeram
sentir alegria apenas por isso?
Posso adquirir conhecimento,
posso viver experiências, me aventurar a lugares desconhecidos e até
sentir imenso orgulho e prazer por estar em minha própria companhia, mas
estarei ainda assim limitada por uma felicidade dependente de meu
contexto atual e do meu ego.
Felizes são os que ignoram as próprias limitações.
Porquê: Eu sou uma alma livre presa em um corpo, mas não limitada por ele.
25 de fev. de 2013
19 de fev. de 2013
Datas
Tem anos que passam pelo calendário da mesma forma com que
passamos por eles. Festejamos o primeiro e o ultimo dia deles com as datas de
festa, férias e feriados pelo meio, acontecimentos e ocasiões até a chegada de
um novo calendário.
Mas existem anos em que não são necessárias as datas para marcarmos o que quer seja, pois de alguma forma os dias gravam-se em nós.
Não são os anos que se tornam bons ou ruins, de grandes acontecimentos, melhores ou piores - mas sim a nossa maneira de vivê-los.
Acontecerão perdas, vitórias, derrotas. Fatos mais ou menos marcantes, mas será sempre a nossa forma de viver cada acontecimento que fará com que o ano fique ou não gravado em nós.
De alguma forma, é como segurarmos entre as mãos a água do oceano. A água passará entre os dedos, deixando um pouco de sal que logo também não deixará vestígio. O que fica, e sempre poderá ficar é a sensação da água salgada em contato com a nossa pele. Assim como o que cada dia representa, como vivemos cada um deles. Não é uma questão de ano, mas de um dia por vez. Ao colocarmos o melhor de nós em cada dia, teremos colocado o melhor de nós em um ano, em dois, em nossas vidas.
Não posso dizer que ao olhar para trás fiz isso em toda a minha vida, mas posso experimentar dizer que tenho feito isso ha pouco mais de um ano. Não tenho ganhos para mostrar, nem medalhas, nem reconhecimentos. Pelo contrário, posso dizer que tenho menos do que eu tinha antes. Menos bens, menos coisas, menos tempo ocioso em frente a televisão ou ao computador, menos horas de sono acumuladas, mais horas vividas. Também não tenho por perto todas as pessoas que eu costumava ter, talvez tenha até mesmo perdido contato com algumas. Mas conquistei outras coisas e também outros valores. Se eu fosse colocar em uma balança, não sei se pesariam mais os ganhos ou as perdas, mas sei que a balança teria o peso certo que deveria ter.
Penso que a maior conquista nesse último ano, para além da
liberdade de conhecer-me melhor, foi ter descoberto meu próprio código de
conduta, o que me faz mais ou menos feliz, mais ou menos completa.
O sabor que
alguns anos tiveram não voltará a ser sentido, assim como a água salgada que já
voltou para o mar. Tenho a lembrança do sabor, e mãos para experimentar novas águas,
que poderão ficar igualmente marcadas cá dentro. Não acredito que exista uma
receita para um ano bom, ou para um dia bom. A única receita que conheço é
tentarmos ser o melhor que somos. O resto, o calendário leva com suas folhas.
1 de jan. de 2013
Nem só de flores são feitos os jardins
Nem só de flores são feitos os jardins...
Nem só de flores são feitos os jardins,
Nem tão pouco só de cores feitas as pinturas.
Nos jardins flores, pedras, capins.
Nos quadros cores, formas, figuras.
Nem só de risos acontece a infância,
Nem só de amores os amantes.
Criança também aprende tolerância,
Amores podem tornar-se errantes.
Que nem só de flores são feitos os jardins,
Nem só de paz e riso é feita a vida.
Inícios cedo ou tarde conhecem fins,
Chegadas um dia encontram a partida.
Não é de apenas luz que são feitos os dias,
Há sombras, chuvas e vendaval.
É preciso mais que força para fazer o que querias,
Nem todos os dias são de carnaval.
Porque não são só de flores que se fazem os jardins,
Não é apenas amor o que habita um coração.
No céu nuvens, sol, lua, estrelas e até querubins,
No peito amor, raiva, paz, dor, fé e perdão.
25 de dez. de 2012
Receita de Novo Ano
Guardei os dias de festa assim como guardei comigo uma
porção de silêncio, um bocado de reflexão e uma porção de recordações.
Fiz minha própria receita, juntando pedaços daquilo que já
foi, aquilo que agora é e as esperanças, sonhos e ideias do que poderá estar
por vir.
Percebi que as melhores receitas se fazem aos pedaços
pequenos, pequeninas porções de ingredientes de momentos e de instantes, a
atenção que cada um desses instantes teve e as marcas que deixaram, os sabores
e as lembranças.
Como quando se coloca a massa de um bolo no forno, pode-se
perceber a hora que o mesmo começa a ficar pronto pelo cheiro que se espalha e
aquece o ambiente a volta.
Começo a sentir o cheiro do bolo, sem conhecer ainda
o sabor dessa mistura.
Posso reconhecer pelo cheiro que sinto agora alguns dos
ingredientes que foram colocados, os momentos de alegria, de saudade, de tristeza, de
medo, de coragem. Momentos de partida, de chegada.
Alguns até de desespero, de
incompreensão e de medo. Tem no meio dessa mistura um tanto de incerteza,
insegurança e força. Tem histórias de vencer os próprios limites, tem atos de
loucura e de estupidez, tem gestos de bondade, humildade e também de egoísmo.
Tem amor e tem também mágoa. Tem doçura e tem uma pitada de sabores amargos que
ficaram.
Não sei qual sabor terá esse bolo, que representa para mim a
mistura não só do ano que passou, mas de uma caminhada um pouco maior que isso.
Talvez, com o ano novo que chega, que nada mais é senão a mudança de folhas em
um calendário, também chegue a hora de experimentar um pouco dos sabores
cultivados, colhidos e misturados nessa receita.
Sinto o cheiro do bolo a ficar pronto, sem saber quando ou
aonde será a hora de prova-lo, mas carrego a certeza de que a criação dessa
receita teve tudo de mim, em cada pequeno pedaço e em cada cuidada mistura.
Que os novos anos que cheguem sejam sempre assim, a chegada
de colhermos aquilo que tivermos plantado de melhor e de mais verdadeiro.
Bom apetite!
3 de dez. de 2012
Pequenas lições que aprendi e sigo aprendendo...
#1 O profissional que você é não se mede
por seu salário, mas na forma com a qual você faz seu trabalho. Já ganhei
muito, já ganhei pouco, já trabalhei de graça. Para cada etapa, um orgulho
enorme em saber que independente do “quanto”, o “como” sempre foi e continua a
ser o mais importante.
#2 O simples é muitas vezes o mais
difícil – e geralmente sempre o melhor. Um gesto simples, uma verdade simples,
uma demonstração simples. Querer fazer ou mostrar muito, provoca inúmeras
possibilidades desnecessárias para erros e excessos.
#3 Quando existe boa vontade, até o
impossível fica mais fácil.
#4 A consciência precisa ser uma escolha
individual, não uma imposição. Os cacos que a verdade desnudada deixa não
permite ajuda na reparação.
#5 A liberdade só existe quando nos
libertamos de tudo que não somos nós.
19 de nov. de 2012
Contexto
Uma peça só faz sentido quando inserida no contexto
adequado. Qual seria o sentido de um barco no deserto, ou de uma espreguiçadeira
com sombrinha em meio a um cenário de neve?
Não sei qual fator mais importante, se a peça em si ou se o
contexto que a envolve. O que é bom ou quase perfeito em determinado contexto,
poderá revelar-se o contrário se o contexto for outro?
Sei muito bem que nós temos a capacidade de nos habituarmos
a muitas e diferentes situações (e contextos), inclusive com a tendência de
muitas vezes aceitarmos ou nos resignarmos com situações que em outros
contextos nunca aceitaríamos.
Acredito que existe um grande desafio em
aprendermos a identificar o que é nossa essência e verdade da forma mais
independente possível do contexto que nos rodeia no momento. Nem sei se tal
coisa é possível – sermos de alguma forma, minimamente independentes do
contexto (nossos desejos, limites, etc)
Não sei até que ponto eu sou eu ou se sou uma resposta ao
contexto ao qual me deixo envolver. Se busco estender meus limites, é certo que
inserir-me em diferentes contextos poderá produzir esse resultado, mas não será
que o contexto ao qual me submeto também irá influenciar nos limites que me
impus?
Testo, meio sem querer, diferentes contextos dentro de um
mesmo cenário. Observo que o cenário muitas vezes molda-se pelo contexto, ou
que o próprio contexto adequa-se ao cenário. O que poderia de alguma maneira
acalmar-me, me provoca ainda maior desassossego.
Parece que tudo de alguma maneira pode moldar-se,
adequar-se. Menos eu.
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