19 de set. de 2026

Não ser

Não sei se foi o facto de estar na igreja vazia, silenciosa, que convidou à um diálogo tão introspectivo e sincero, ou se foi a minha própria lembrança de como costumava me sentir anos atrás.

Durante anos, décadas provavelmente, tentei (algumas vezes, violentamente) ser. Ser melhor, fazer melhor, ser capaz, ser forte, ser justa, ser correta, ser a melhor versão que eu pudesse imaginar de mim mesma. Gostei muito de tentar, não medí o quanto (ou se) consegui.

Mas talvez, "ser/ fazer melhor" não seja mais o grande propósito para mim, ao menos por agora, não mais. Encontrei outro, ao menos provisoriamente. Não ser.

Não ser quem se ofende diante de uma ofensa, não ser quem se revolta diante de uma injustiça, não ser quem responde à uma crítica, não ser quem se defende diante de uma acusação, não ser quem se rebela contra uma arbitrariedade. Não por apatia, inércia, acomodação ou conformismo - ao contrário. Por saber que nem toda ofensa é consciente da ferida que provoca, nem toda injustiça é premeditada, nem toda crítica é isenta de projeção, nem toda acusação é refletida e nem toda a arbitrariedade é culpada.

Não preciso ser quem reage, posso ser quem se cala. Não preciso ser quem se defende, posso ser quem se recolhe.

Há muito mais cores para além do preto ou do branco, e nem todas as cores precisam ser definidas. É engraçado como, quantas vezes, quando me vejo a alterar alguma perspectiva minha, lembro-me sempre do Darwin e sua teoria sobre a adaptação das espécies...

Este foi, até agora, um ano particularmente difícil. E ainda não acabou... E não há garantias ou certezas de que 2027 poderá ser melhor - e não precisa haver. Porque talvez não seja. Talvez nem nós sejamos melhores, e talvez, também não precisemos ser. Podemos, quem sabe, ser apenas a pessoa que não se ofende diante de uma ofensa, que não se revolta diante de uma injustiça, que não responde à cada crítica, que não se defende diante de acusações e que não se rebela contra aquilo que não concorda. 

Talvez, menos conflito, mais liberdade para que cada um possa ter opiniões e comportamentos contrários aos nossos sem termos que reagir, responder ou agir possa ser um caminho para menos atrito, e talvez, só talvez, um caminho não ideal, mas possível, para a paz. E quem sabe até... para o amor.

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