Não consigo me lembrar de nada mais impactante do que foi a visão surpreendente de um veado grande, selvagem, atravessar-me o caminho a correr (sem nem sequer dignar-se a me perceber) e a continuar o seu caminho, livre, sozinho, apressado e incerto.
O primeiro impacto que senti ao vê-lo foi maravilhamento (se é que existe esta palavra), e logo à seguir, um choque ainda mais avassalador - reconhecimento.
Naquele instante mágico, único, eu vi-me refletida naquele veado - e aquele veado poderia ver-se perfeitamente refletido em mim.
De facto, existem possibilidades impressionantes de Imprevistos e de encantamento disponíveis para acontecer no instante em que nos permitimos ir para além das cascas de nós mesmos (não é de graça).
Tenho ainda a pele tocada pelo sol das planícies e os meus olhos ainda guardam o brilho do universo estrelado da noite passada atropelada pelos satélites e aviões, até a surpresa do veado que me atravessou o caminho, mostrando-me mais de mim do que eu estava a ver em mim mesma.
Meus olhos que antes tinham se molhado com a beleza do selvagem, agora chocavam-se com a diferença de julgamento à que me submeto comigo mesma. O veado: maravilhoso, selvagem, livre, vivo, pulsante, vibrante. Quando percebo que "somos iguais": Pobre veado assustado, para onde vai? Coitadinho, tão sozinho... O que vai ele fazer da vida?
É impressionante como só vendo a beleza nele, consegui perceber a minha...
E para a pergunta sobre o que vai fazer o veado da vida dele, a resposta é a mais simples e verdadeira possível: - viver!

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