15 de mar. de 2026

Raízes



Agosto de 1983. Tinha eu 4 anos e 4 meses nesta foto, e quando minha irmã a enviou uns dias atrás, foi incrível ver e me lembrar daquele momento.
Férias na fazenda. Os cavalos (e se me lembro bem, também haviam jumentos) reunidos no mangueirão. O momento mágico quando a peãozada ia celar a tropa para manejar o gado para trocar a pastagem, separar os novilhos ou preparar para vacinação, ou castração (os detalhes do que era a atividade do dia, confesso não lembrar).
Mas lembro da minha preocupação: deve ser muito difícil para os animais comer uma espiga de milho inteira! E crua! Melhor debulhar o milho.
Os porcos também gostavam, embora o cheiro e a lama perto deles não fosse uma tarefa muito fácil, e não raras eram as vezes de "atolar" e perder um pé da bota ou do sapato.
Também havia um ligeiro receio dos ratos que podiam estar no palheiro, mas não eram medos - eram desafios incríveis!
E durante muitos anos, estes momentos das férias eram ansiosamente esperados. Durante um tempo, éramos todos a ir pra fazenda, reencontrar os primos e tios, viola, violão e cantorias à noite no terreirão todos juntos, a cantar olhando o céu enquanto escolhíamos as melhores montanhas de café cobertos de lona para deitar.
Havia alí um paraíso - e sabíamos.
Depois, já não íamos todos, ia eu com meu avô. Já não havia mais as cantorias, ou os primos ali pertinho, toda gente junta e reunida - mas havia ainda o paraíso.
Depois, lá pelos meus 17 ou 18 anos, deixei de ir. Namorado, faculdade, trabalho.
Não sei dizer ao certo quando foi a última vez que fui, mas sei que nunca saí.
Nem saí, e nem parece sequer distante o tempo de estar à cavalo pelos pastos, walkman nos ouvidos, cantando alto e sendo feliz. Ou distante os momentos de fim de tarde sentada com meu avô no terraço, olhando a velha porteira aberta, a casa em frente amarelada e vazia onde anos antes, brincavam ali primos tão queridos. O cheiro que vinha da fileira dos eucaliptos perto da garagem, ou do panelão de ferro no forno a lenha cozendo carne e fubá para os cães. Parece ontem.
Mas talvez tenham passado 20 anos. Faço as contas... 20 anos?! Talvez... talvez 25.
O mundo mudou, a vida mudou, o tempo mudou. Mas eu... eu acho que não. Ainda me fascinam aqueles cheiros, aquele medinho de ratos no palheiro, aquela preocupação de que deve ser difícil para os bichos comerem o milho com o sabugo.
Não sei se ainda sei selar um cavalo como deve ser, apertar a barrigueira, colocar o freio sem magoar e ter os pés no estribo sem ficarem presos se eu for cair.
Talvez, os últimos 20 ou 25 anos tenham me feito duvidar mais das minhas capacidades do que especialmente desenvolvê-las. Hoje, me pergunto se eu saberia debulhar uma espiga, não me lembro de ter tido qualquer dúvida no momento em que esta foto foi tirada, onde simplesmente, fui fazer. Quem sabe, ainda posso ensinar à mim mesma o que o tempo me deixou esquecer...

5 de mar. de 2026

Dora Maria Saltimbanca Alegria de Guadalupe


Obrigada.

Pelos passeios diários, muitas vezes cronometrados, mas constantes.
Obrigada pelos dias que me fizeste sair cedo da cama, ainda cheia de sono, e assim poder ver o dia nascer. Pelos passeios que me permitiram sentir a chuva a cair, o vento gelado ou o sol escaldante.

Obrigada por me obrigar a ver o mundo lá fora, quando tantas e tantas vezes eu estava fechada para dentro. Por me mostrar a possibilidade de ser alegre só por ver passar qualquer pessoa, qualquer cão, gato, passarinho, sombra ou folha a voar.

Obrigada por me estar a ensinar que aquilo que há agora, realmente, é mesmo só o instante de agora, e pode acabar a qualquer instante.

Obrigada por até neste momento tão difícil, tão impossível, me estar a ensinar e mostrar tanto.

Eu não sei quanto tempo temos, e isto me mostra de forma inequívoca e nítida o que eu sempre devia saber (e ter consciência) a todo minuto: nunca, ninguém sabe realmente quanto tempo tem. Que fácil é nos esquecermos! Que difícil é termos que nos lembrar!

Não sei se quando acontecer a nossa despedida vamos estar juntas, não sei se será hoje, amanhã, daqui a 10 dias, um mês, um ano. Mas sei que nunca será uma despedida, sei que cada milésimo de segundo vale por toda a vida, e que de facto, o tempo não existe.

Obrigada por me mostrar que o necessário é apenas ser feliz, e que mesmo nessa fase de tristeza e dor, a felicidade também existe, por todo e cada segundo permitido agora, ontem, amanhã e realmente, para sempre.

❤️

7 de set. de 2025

Espaço

É... afinal ocupaste um espaço que ainda tento, desenfreada e continuamente, tentar ocupar.
Eu, que sabia tanta coisa, ou que pensava que sabia, afinal nem vi, nem percebi, nem me dei conta de que são precisos todos os pilares equilibrados para sustentar qualquer estrutura, inclusive a minha.
Eu, que achava que podia tudo e qualquer coisa, esqueci-me de olhar que um pilar à menos é um buraco constantemente vazio, não importa o quanto eu tente fortalecer os pilares restantes. E olha, eu bem tento!
Não é fácil finalmente parar para olhar e tomar consciência da perna que me falta. Pois falta. E não há muleta em seu lugar, nem cajado, nem nada - apenas mesmo a ausência da perna, o buraco vazio onde ela deveria estar. Eu jamais me contentaria com qualquer coisa que fosse menos ou menor que a minha própria perna...
Fortaleço (ou tento) ao máximo a perna que tenho, deformo-a, crio um monstro - há que compensar o buraco vazio. E sigo aos saltos em uma perna só, com toda a força de uma raça obstinada e implacável, à toda velocidade, em todas as direcções possíveis que me aparecem pela frente - mas nunca sem sequer olhar para qualquer substituto possível à perna que me falta. Se ela não existe, que não existam também substituições hipócritas - vou sem ela!
Às vezes pergunto-me se, na minha pressa, poderia eu atropelar a minha própria perna ausente e nem perceber, mas tão pouco posso parar para olhar - há que seguir.
Porque já não é possível parar para sentir a falta, a dor, da perna que não há - esse tempo de sentir e de parar, já foi. Já parei. Já senti. Há que seguir.
Seguir como segui todas e tantas vezes, a cada uma, conquistando sonhos que não imaginei, horizontes que não sonhei, propósitos que não tinha. Assim, fiz-me eu, mais conquistadora de sonhos do que eu teria sonhado, de mais horizontes que eu teria imaginado e tenho hoje mais propósitos do que eu teria um dia pensado.
Tornei-me mais e tornei-me melhor, porque carrego e tento compensar um buraco.
Se não houvesse buraco, seria eu, eu mesma? (Penso que não)
Então, ao invés de amar quem um dia foi, passo a amar o buraco que agora é, e que por fim, faz-me ser mais completa e inteira do que jamais fui.


25 de jun. de 2025

Faz coisa de quase um ano talvez, que abandonei o Tinder. Ah pois, eu andava lá, a ver se aparecia um príncipe encantado, um cavaleiro andante ou algo assim. Mais por curiosidade que qualquer outra coisa, depois de poucas palavras trocadas online já se notava que vá, aquilo não era nem é mesmo para mim. Mas fui ver, vi e não gostei. Ainda assim, por lá estive, a pensar que não estar nem presencialmente nem virtualmente em lado nenhum, era mesmo mal se existia em mim alguma vontade de apaixonar-me outra vez. Se a minha vida e a minha rotina (e um bocado também da minha personalidade, vá, confesso) não dão grande abertura social, ao menos tinha que tentar ver o que aquilo era (ou é).
E agora, já passado um bom tempo sem estar nem esperar nada de ninguém nem de lado nenhum, fui me dando conta de que de facto, o "problema" não são os outros - nem o que querem, pensam, esperam ou fazem. Sou eu.
Eu que não me "encaixo" nem me enquadro no que por aí, por lá, ou por cá, vi.
Gente magoada, ferida, a tentar dar à volta a situação cada um ao seu jeito, seja pelo romantismo, pela carência, pelo distanciamento, pela indiferença, pela promiscuidade ou isolamento, vi excessos de um ou de outro lado, defesas de um ou de outro jeito, mas verdadeira disponibilidade... não vi. E isso nada tem à ver com o Tinder ou outra coisas destas qualquer, tem a ver com o nosso tempo, nossas vidas, nossas histórias pessoais, nossos próprios passados, individuais. Seguimos, e da maneira que mais nos dá algum conforto seguir, que menos "remexe" nas feridas que vamos tentanto cicatrizar. Até aí, tudo certo... se esses comportamentos não nos fizessem estar justamente nos afastando cada vez mais das nossas próprias cicatrizações. É preciso sentir sim! E deixar as mágoas doerem, para que possam ser curadas. Deixar o passado passar ao seu tempo, sem atropelá-lo, sem passar para o próximo passado seguinte antes de deixar o último ter, de facto, passado.
Não estamos a correr contra nenhum relógio- ainda mais quando o relógio em causa, é o nosso relógio interior, sentimental, a essência de quem nós somos e como nos sentimos. Correr contra o nosso ritmo interior e emocional é afogarmos com a pressa tudo que ainda precisamos sentir para nos curar, para voltarmos a ser quem somos, cincronizados com nosso relógio interno sem pressas ou atrasos, sem alarmes e sem adiantamentos.
Não vi nenhuma falta de respeito, nenhum mal comportamento que não fosse antes de tudo e qualquer coisa, um comportamento auto-sabotador, auto-inflingido e auto-destruidor.
Não me deu raiva, nem rancor, nem tristeza e nem alegria ou interesse, mas... comoveu-me. Por que eu, igual ali a todos e a qualquer um, também partilhava do mesmo barco, da mesma maré, das mesmas lutas. E não foi legal ver-me assim. Nem ver ninguém assim.
Não vamos resolver feridas na internet, não vamos calar angústias com selfies ou mensagens, não vamos ser nós mesmos ignorando quem somos e o que sentimos.
Existe (ou deveria existir) vida para além de bites e de códigos, é e está acessível para todos e para qualquer um - pode não ser a viver momentos incríveis (e fantasiosos) ao lado de um príncipe encantado, mas pode ser muito mais bonito e mais real - numa caminhada tranquila, ar puro nos pulmões, brisa a soprar nas folhas das árvores e luz, imensa luz a nos tocar a pele. Até que... nos encontremos a nós mesmos. E depois, se calhar, possamos encontrar alguém mais.

12 de jun. de 2025

Mosaico

Ainda não tenho todas as peças, nem todos os pedaços.
Os que possuo, ainda não adquiriram forma, apenas vão, pouco a pouco, juntando-se.
Peguei pedaços da longa viagem, das experiências em locais distantes, uns mais passageiros e fugazes que outros, uns mais coloridos e alegres, outros mais escuros e afiados, para além das cores neutras, há aquelas mais quentes, e também as mais frias.
Ainda são apenas pedaços, que embora alguns pareçam mais inteiros que outros, são apenas pedaços.
Junto ainda outros quantos, que misturam-se àqueles mais longínquos no tempo com os mais recentes, e mesmo os atuais.
Pego do trabalho cotidiano a força e a resiliência, junto com a determinação dos trabalhos académicos, misturo com a paz e o silêncio das noites, adiciono o carinho e afeto da companhia constante de 4 patas de um rabo incansável, e vou formando a figura e desenho que ainda desconheço.
Olho serena e vejo ali, nos cacos já encaixados, a primeira viagem de avião e as primeiras despedidas, reconheço as cores mais ao lado das despedidas finais, dos abraços que foram dados pela última vez, dos primeiros encontros e de todas as ilusões que cada caco reúne. Não adivinho o desenho que se vai formando, mas reconheço-me inteira na forma que toma.
Talvez, um dia, suas formas e contornos sejam mais nítidos, talvez afinal, seja apenas arte abstrada quando acabar, mas nunca foi importante a figura final, senão a sua própria construção.
E assim, pedaço a pedaço, caco a caco, vou construindo o amontoado de cores e de formas, para ver, através do espelho em que se transformam, que os pedaços sou eu.