Há imensas tragicomédias na vida, mais facilmente vistas quando conseguimos alcançar o distanciamento necessário para olharmos para elas.
Me lembro nitidamente de estar a nadar alguns poucos meses atrás a ouvir música, me permitindo simplesmente sentir os músculos do meu corpo em movimento, o sol, o suave balanço das árvores e o canto dos pássaros, quando um nítido feixe de luz se fez dentro dos meus pensamentos suspensos como pó.
Aquilo me marcou. Me impulsionou a abrir um pouco mais a abertura feita pelo feixe de luz, e deixá-la ali, a tomar o seu próprio tempo de evolução.
Anoiteceu e amanheceu vezes que não contei, nem cronometrei o tempo necessário para a luz ampliar-se.
O tempo passou, e saí e voltei a entrar mais umas quantas vezes na água, e adormeci e despertei outras tantas. Mas hoje, já em outras terras, em outros hábitos e com outras poeiras suspensas no pensamento, o tecto abriu-se.
E antes de perceber, chorei. Muito brevemente, mas de uma profundidade desconsertante.
Foi-se o telhado, foram-se as telhas, a poeira levantou e o vento pôde levá-la para fora. Com a luz realmente a entrar, pude ver as paredes e suas marcas causadas pelo tempo, pude ver e sentir o chão sob os meus pés.
Como escolher não decidir, quando a decisão torna-se tão clara e inegável?
Os limites constantemente ultrapassados em nome de uma compreensão empática que tudo vê e aconchega, excepto as próprias paredes - e continuamente as ultrapassa.
Mas não. Já não.
Não espero a mesma empatia, que quiçá pudesse ver o esforço sólido e constante que foi levantar estas paredes - sólidas, marcadas, largas, resistentes e feitas à mão - centímetro a centímetro.
Não espero reconhecimento pelas paredes erguidas, pelos sacrifícios feitos. Antes, se pudesse escolher, escolheria apenas o reconhecimento de que a luz inundou o espaço, e que já não há mais espaço para que eu saia ou tente alargar ainda mais as paredes que constituem os próprios limites que definí. Os meus.
E todas as portas e janelas estarão constantemente abertas, cheias de luz e de vida em um espaço seguro e abundante - para quem souber caber nas paredes sem tentá-las alargar, ignorar, modificar, derrubar.
É a única regra, a única condição, e não é negociável - nem em um mísero milímetro. São paredes - não elevadores.
E assim, tomando a consciência do quão confortável estou com minhas paredes, permito-me descalçar, abrir as cortinas, plantar flores no parapeito e convidar os passarinhos à entrar.
Entrou um feixe de luz pelo telhado... e de repente, me tornei eu.
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