22 de jun. de 2026

Há um momento estranho em certas despedidas que não são despedidas.
Um momento em que nada acabou realmente, mas também nada continua da mesma forma.
O mundo permanece intacto. As estradas são as mesmas. As rotinas retomam o seu lugar. Os carros continuam estacionados onde sempre estiveram. As portas abrem-se à mesma hora. O trabalho espera. O dia começa.
E, no entanto, alguma coisa mudou.
Não do lado de fora.
Do lado de dentro.
Hoje passei por um lugar por onde passei tantas vezes antes.
Durante muito tempo, sem admitir plenamente a mim mesma, desacelerava. Não por necessidade. Não por acaso. Desacelerava porque existia a possibilidade. Porque uma parte de mim permanecia disponível para o encontro, para o acaso, para a interrupção do caminho.
Hoje não.
Hoje passei e continuei.
E isso não significou ausência de amor.
Não significou ausência de saudade.
Não significou indiferença.
Pelo contrário.
Talvez só tenha sido a primeira vez em muito tempo em que o amor deixou de ser confundido com disponibilidade infinita.
Continuo a pensar.
Continuo a sentir.
Continuo a preocupar-me.
Há dias em que me pergunto se estará tudo bem. Se dorme. Se trabalha demasiado. Se carrega pesos que ninguém vê. Se continua a travar batalhas silenciosas dentro de si próprio.
E há uma parte de mim que continua a querer facilitar-lhe o caminho.
Talvez porque compreender seja uma forma de amar.
Mas existe uma diferença subtil entre compreender e assumir responsabilidades que não são minhas.
Demorei muito tempo a perceber isso.
Compreender a dificuldade de alguém não obriga a carregar a dificuldade pela pessoa.
Compreender o silêncio não obriga a preenchê-lo.
Compreender o medo não obriga a salvar.
Há afectos que amadurecem precisamente quando deixam de invadir o território da responsabilidade alheia.
Talvez seja isso que estou a aprender.
Não a deixar de sentir.
Mas a deixar de substituir.
Durante anos pensei que a generosidade consistia em permanecer.
Hoje pergunto-me se, por vezes, a generosidade consiste em recuar um passo.
Não por castigo.
Não por orgulho.
Não por cálculo.
Mas porque algumas travessias só podem ser feitas pela pessoa que está diante da ponte.
E porque chegar a meio da vida ainda não nos torna necessariamente capazes de atravessar tudo aquilo que sentimos.
Há quem saiba enfrentar o mundo e não saiba enfrentar uma emoção.
Há quem suporte responsabilidades imensas e não consiga permanecer muito tempo dentro da própria vulnerabilidade.
Há quem ame e recue.
Há quem deseje proximidade e, quando ela chega, precise de fugir para respirar.
E compreender isto não elimina a dor.
Mas retira-lhe a necessidade de condenação.
Nem todas as ausências nascem da falta de sentimento.
Nem todas as presenças nascem da coragem, muitas são justamente o contrário.
Nem todos os silêncios são iguais.
Talvez seja por isso que continuo sem raiva.
Ou talvez exista alguma raiva.
Uma pequena raiva honesta.
Aquela que nasce quando percebemos que também temos limites.
Aquela que aparece quando finalmente admitimos que não podemos ser sempre a pessoa que regressa primeiro à porta.
E talvez isso também faça parte do amor.
Reconhecer que o outro tem o direito de ser quem é.
Mas que nós também temos.
Por isso continuo o meu caminho.
Não porque deixei de olhar para trás.
Mas porque aprendi que olhar para trás não me obriga a parar.
Continuo a sentir ternura.
Continuo a sentir saudade.
Continuo a desejar que esteja bem.
Mas pela primeira vez em muito tempo, essas coisas já não me obrigam a abandonar o lugar onde eu própria estou.
E talvez seja isso, afinal, crescer.
Não deixar de amar.
Mas deixar de desaparecer de si mesmo por amor.

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