30 de set. de 2010

Desabafo - Caminhante

Caminhante: NÃO HÁ CAMINHO! O caminho faz-se ao caminhar...
Pobre de nós, que aceitamos a realidade que nos ensinaram. Pobres das pequenas crianças que se deitam a noite para dormir com o estômago resmungando de fome e sonham com as histórias encantadas que viram nas figuras de algum livro ou com os romances das novelas. Pobre dos homens que deixam seu suor e muitas vezes seu sangue para levar a casa o sustento da família enquanto espera pelo reconhecimento através de milagre por seu esforço. Pobre das mulheres que se dedicam a família renunciando as próprias aspirações e potenciais esperando que com isso ela viva novamente através da vida dos filhos que um dia pôs no mundo. Somos todos eternas crianças, a nos deitar para dormir admirando a lua e sonhando desejos soterrados enquanto nossos estômagos reviram-se vazios. É preciso coragem para abrir os olhos, é preciso renúncia para caminhar sem levarmos às costas cargas que pertencem aos outros e não a nós. Carregamos necessidades que nos ensinaram ter, carregamos frustrações que outros tiveram por nós, carregamos cargas demais, soterramo-nos com pesos desnecessários e procuramos por atalhos para diminuir a carga quando o que falta-nos é a coragem de deitarmos ao chão as coisas que pegamos sem que de fato nos pertencessem. Abandonamos nossa essência para ignorarmos a responsabilidade de nossas próprias escolhas e medos. Apoiamo-nos em desejos camuflados e vivemos projeções de um futuro que jamais esteve sob o controle de nossa vontade, mas apenas e unicamente dependente das atitudes presentes que tomamos. Perdemo-nos de nós mesmos com extrema facilidade, enquanto buscamo-nos desesperadamente nos olhos de outra pessoa. Tornamo-nos poços de justificativas mascaradas acreditando que nossas atitudes têm o poder de modificar as pessoas a nossa volta. Não há quem possa auxiliar outra pessoa senão a própria. Não há amanhã pleno ou satisfeito se não conseguimos trazer para o hoje a plenitude em nossos espíritos. Pobre de nós, que apoiamo-nos em ilusões desejando encontrar nelas a realidade que acreditamos desejar. Pobre de nós, que ao agirmos feito cegos, ensinamos outros a fechar os olhos. Pobre de nós, que dependemos de muletas para darmos nossos próprios passos. Não há luz sem que haja escuridão, não há verdade sem que haja a mentira. Não há realidade sem que haja fantasia. A arte é o discernimento que optamos por ter ou não. Pobre de nós, que afogamo-nos no amor quando não somos capazes de senti-lo por nós mesmos. Não há o certo sem que haja o errado. Não há julgamento. Há o que somos, o que somos por baixo de nossas vestes e verdades, de nossos sonhos e ilusões, de nossas atitudes e crenças. Não há o certo, não há o justo. Há o que optamos ser. Não há caminho. Caminhante... Caminhe. Caminhante... Não existe a estrada pronta, a escolha acertada, o destino traçado. Caminhante... O caminho só se faz ao caminhá-lo.

Minha prece (2008/9)

Olha aí, talvez alguém deva falar alguma coisa. Grande Universo sobre as nossas cabeças, será que não vês mesmo o que se passa por aqui? Olha bem, desse ângulo que só você tem, e percebe bem esses olhares cheios de desespero, de angústia, de insatisfação. Quantos, quantos, oh meu Deus, quantos corações solitários, perdidos, desesperados e sedentos por não se sabe o quê?! Pára tudo. Pára por um instante que seja. Não está vendo o quanto as cabeças andam se batendo nas paredes, dando voltas e mais voltas em círculos? Olha aí, que eu sou só mais uma cabeça a bater, mas não é só por mim que digo, não! Pois sou mais um número dentre tantos, e já pouco me importa, mesmo. Mas me importa ver tamanha dor, oh meu Deus! Cadê as estrelas que ficam ali, paradas, tão bonitinhas brilhando em seus lugares certinhos enquanto o caos e o desespero se instalam aqui? Olha lá, é natal e nem parece dezembro. Já daqui a pouco é outro ano e o mundo nem saiu ainda do antigo. Tem fome demais. Fome de tudo. Tem dor demais. Dores de todos os tipos. Tem rancor demais! Falta de amor, falta de paciência. Cada um olha só por si (e é claro que sim, porque estão doídos demais para ver qualquer outra coisa!) e ninguém percebe o resto, não se consegue olhar ao redor. Olha lá, mas por favor, olha mesmo, e pára um minutinho “se faz favor” e vê se dá pra fazer alguma coisa pelos desesperados, pelos que sofrem, pelos que choram. Pelos que se sentem sós, pelos que perderam algo que não há como repor... Acalenta esses corações, todos os corações, porque eu sei que dá. Derrama um pouco de paz nesse mundo, espalha um pouquinho só de consciência, de compaixão. Dá um pouco de colo para aqueles que precisam – e para aqueles que acham que não precisam também. Espalha um pouco da beleza da criação, faz transbordar um pouco do excesso de sentimentos bons, de esperança, de fé seja lá no que for. Olha, por favor. ... obrigada, amém.

Porto

É um cais de porto, e o navio está já prestes para ir
Serão vencidas grandes tempestades e tormentas
Alguns chegarão ao fim, outros antes disso vão partir
Todas, afinal, são almas por aventuras sedentas.

Haverá os dias de noites longas, frias e solitárias
Haverá horas de comunhão e também as cheias de aflição
Terão histórias tanto reais quanto as imaginárias
Histórias repletas de medo, de amor e de muita ambição.

É um cais de porto, e o nosso navio está pronto para partir
Para o oceano da vida, para aquele que se considerar desperto
Para quem permitir o oceano por baixo de si apenas fluir
Para aquele que puder aceitar navegar para um destino incerto.

É um cais de porto, o navio está prestes a zarpar
Obviamente haverão as esperançosas, tristes e as difíceis despedidas
Mas há todo um universo aberto para se abraçar
Mesmo que se sinta do adeus a dor, a dúvida e a tristeza desmedidas.

É um cais de porto, alguns nessa viagem irão embarcar, outros aqui irão ficar
No horizonte iluminado, o sol devagar se esconde atrás da imensidão do mar
Pode ser que você deixe aqui nesse cais aquele por quem foi um dia se apaixonar
Mas nessa viagem, não há quem antes saiba o que perdeu, para então encontrar.

Morrendo

Somos seres humanos, somos almas dentro de corpos finitos. Aceitar a percepção de que nosso corpo é passageiro enquanto o que somos é constante é percebermos a nossa magnitude e nossa efemeridade. Quando nos percebermos numa situação de aflição e angústia, se tentarmos elevar os nossos olhos como se fôssemos um pássaro que observa de cima o mundo abaixo dele é tornarmos possível enxergar o nosso problema como se ele não nos pertencesse mais. Buscar outros ângulos de observação é assumirmos que por mais dilacerante que nos seja um momento, ainda assim esse instante será mais efêmero que a existência de nossa vida nesse corpo, nesse instante. Vai passar. O que nossa essência (ou espírito) levará de aprendizado dentro dela devido a esse período é o que nos restará como lembrança e conquista. Que possamos tornar essa conquista o melhor possível, enquanto padece o corpo e a efemeridade inerentes a ele.

What is that love?

What is that love we feel, in a moment that makes us fall on our knees by a familiar face and in another moment it makes us feel our legs tremble front an unknown look? What is this feeling that tears us away on an alone and dark night, and that sometimes when we are together is our goal? What is this love that makes us dream of fantasies and throws us against reality when we realize our own illusion? What is this love that makes us through unknown paths in the name of a search that never ends? What is this love that sometimes forces us to settle the heart in a safe ground when our aspiration is to fly? What is this love so intense, deep and desperate that exists in infinite space and takes away our peace, and gives us in brief encounters for life the feeling of unutterable fulfillment? What is this love that forever searches, never finding a port of all their aspirations? What is this love that we read about, we see in the eyes of others and never get to live fully? What is this love that dominates the soul, which starts in a weeping sore and makes us find the courage to glue the pieces of our heart and move on after a disappointment?

Desaparecer

Eu quero desaparecer dentro de mim mesma, mergulhar na luz e no entendimento de mim mesma. Tirar para mim mesma esse tempo e esse espaço. Permitir que a compreensão inunde meu espírito e como uma luz, ilumine a minha própria escuridão. Quero desaparecer em meio as minhas próprias sensações e reconhecer a vida existente em mim. Como uma estrela cadente que explode alta no céu quero permitir em mim a explosão e o transbordo de luz. Não existe sentido em fazer com que outros percebam a realidade que me toma e condensa-se em mim. Quanto mais me torno névoa por fora, mas densa me transformo por dentro. Muito já deixei cair pelo caminho, muito ainda à deixar. Não quero as coisas pequenas que me tomam o dia e o tempo. Não quero as desculpas e falsos lampejos de hipocrisia e apego. Renego as necessidades do ego. Renego. Renego. Renego. A ilusão do instante presente não me convence. A preocupação do tempo futuro não me preocupa. Desapareço dentro de mim para me tornar quem sou. Explode em mim a luz. É tênue o sentimento que ainda me liga ao meu apego. A linha se estica, se afina, ainda não se rompe. A eternidade em um único sentimento. A compreensão através de um único desejo. A ausência total de temor, a ausência total da necessidade. Então essa é a verdade, onde tudo e nada são a mesma coisa, e essa coisa é o estado absoluto. Eu mergulho. Eu sinto, eu reconheço o sentimento. Eu me liberto, eu não lamento pois não há o que se lamentar. Eu desapareço dentro de mim mesma. Enfim, eu me liberto. E o nome dessa liberdade é reconhecimento, é aceitação. O nome dessa liberdade é amor. Amor sob vontade.

Storm

Suddenly the Sky became Gray, the Sun disappear. A strong wind is blowing all things around me. I open the door, the windows, I let this wind came and touch my face and my body. I’m waiting for the rain. I already hear the thunders. This will be a real storm. And I will let everything open, I will take off my shoes, and I will receive this rain in a state of grace. This storm is nothing if I compare with the storm and openness inside me.

Oceano

É nessa movimentação do dia a dia que tanto as pessoas se desencontram, é no passar dos dias e no correr do tempo que há muito mais desencontros que encontros. Somos pessoas no mundo, e por alguma razão oculta, obscura, partilhamos o mesmo instante nesse mundo. Se não há mais tantos empecilhos da distância e no espaço, estamos todos, como náufragos, compartilhando no mesmo instante o mesmo oceano. Tantas pessoas, rostos desconhecidos, olhares perdidos em si mesmos, passos sem rumo certo, todos somos tão intimamente próximos, tão absurdamente estranhos uns aos outros. Quero olhar os desconhecidos nas ruas e ver a mim mesma, uma sombra de mim. Não entendo porque os estranhos simplesmente passam uns pelos outros sem nem mesmo se dignificarem a um olhar nos olhos mais atento, mais cuidadoso. Pode ser que meu destino seja o manicômio, mas porque estranhos não se abraçam? Por que não se olham nos olhos? Por que não assumem perante a todos, perante ao mundo, suas dores? Por que se ocultar? Somos náufragos no mesmo oceano, por que não somos a tábua de salvação uns aos outros? Por que? Por que criamos em nós tamanha clausura, tamanho preconceito, por que teimamos em não vermos os outros como vemos a nós mesmos? Estamos todos dividindo o mesmo tempo nesse mundo, por que então parecemos aos outros tão estranhos? Por que não rir e não chorar com um desconhecido se somos todos feitos da mesma matéria, das mesmas emoções, se no fundo, pertencemos todos ao mesmo corpo etéreo? Somos náufragos no mesmo oceano, olho para os lados, todos olham apenas para si mesmos. Não vejo olhares compartilhados, entendimentos subentendidos, somos náufragos, e estamos nos afogando.

Morte & Perda

Morte

As vezes a vida nos surpreende, e perdemos pelo caminho pessoas que nos fizeram ver a vida de uma outra forma, pessoas que fizeram parte de nossos instantes, de nosso crescimento, pessoas que fizeram parte de nós e que dividiram conosco instantes únicos de nossa jornada.
E, sem aviso, sem que estejamos preparados, simplesmente a pessoa deixa de existir, e não teremos mais a certeza e a segurança de saber que se quisermos telefonar, abraçar ou estar juntos de novo, simplesmente não vai acontecer. E a dor dessa perda, a certeza de que o tempo vivido não é recuperável, que as coisas ditas ou não ditas são imutáveis, deixa uma sensação de impotência e vazio enormes dentro de nós.
Não existe forma de lidarmos com isso, não existe conforto possível, por mais que tenhamos fé ou apoio, a ausência será permanente. A única coisa que podemos efetivamente fazer é termos em nós as lembranças vividas, e honrar a existência dessa pessoa em nossa vida fazendo cada vez o melhor que pudermos, sendo cada vez mais a melhor pessoa que possamos ser. Vai continuar a existir um vazio, vão existir espaços não preenchidos, que somente a gente poderá preencher com as lembranças e memórias que escolhermos guardar.
A maior homenagem que podemos fazer à pessoa que já não mais existe entre a gente e que não mais compartilha de nossa vida conosco é fazermos valer a pena cada instante vivido, cada troca de carinho, de amizade e de amor. É transformarmos dentro de nós o sentimento da dor e da perda em motivação e crescimento, em aprendizado e evolução. Podemos tirar inúmeras lições olhando para a vida que a pessoa teve e as escolhas que fez ao longo do caminho, mas podemos também aprender muito olhando para nós mesmos em relação a pessoa que já não está mais aqui.
Podemos aprender a olhar para cada ser humano com um carinho enorme, sabendo que amanhã essa pessoa também poderá não estar mais aqui, ou ainda, percebendo que amanhã a pessoa para quem olhamos hoje poderá sofrer alguma perda que será irreparável, irremediável.
Estamos todos aprendendo a viver quando a morte nos alcança, estamos todos despreparados e enfrentando jornadas semelhantes. Não existe receita que nos ensine a lidar com a dor ou com a perda, mas existe a vontade de fazer com que através desse sofrimento, consigamos ser pessoas melhores, tanto para nós quanto para os outros.
Acredito que o que chamamos de luto tenha uma razão, que é a de nos permitirmos nesse período avaliarmos toda a relação existente com a pessoa que partiu, e assim nos prepararmos para seguir adiante com nossas vidas, tendo essa pessoa dentro de nós como a motivação para que sejamos cada vez mais e maiores como indivíduos.

Perda

O quanto perdemos ao longo da vida? Quantos amigos, quantos sonhos ficam aos poucos para trás, tanto que nem mesmo conseguimos mais nos lembrar? O quanto deixamos para trás a pessoa que costumávamos ser, para abraçar os acontecimentos da vida sem nos darmos conta, apenas nos conformando com a forma com que as coisas acontecem?
O quanto aceitamos perdas e despedidas em nossas vidas, sem pararmos para avaliar e nos questionarmos se com isso estamos abrindo de uma certa forma mão de nós mesmos e de quem somos?
Fazemos concessões demais, seja para mantermos o que nos é conhecido seja para não enfrentarmos situações que possam nos assustar. Muitas vezes nem sequer nos questionamos, aprendemos a abrir mão de sonhos e em aceitar derrotas e perdas, apenas porque aprendemos que somos capazes de sobreviver.
Mas por que razão pensamos assim, de que se somos capazes de sobreviver então está tudo bem? Por que nos acostumamos a nos contentar com menos do que aquilo que queremos ou do que acreditamos sermos merecedores?
Quantas atitudes já tivemos em nossas vidas de que somos verdadeiramente capazes de nos orgulhar? O medo e a culpa são os grandes inimigos de nossa existência, são sentimentos que nos fazem paralisar nossas vidas ou que nos mantém fixos sempre no mesmo lugar. Por mais que tentemos, não somos capazes de acertar sempre, e nem podemos a todo instante agradarmos as pessoas à nossa volta. Não há razão para carregarmos culpas, nem motivo para temermos, uma vez que a própria vida é uma incerteza.
Se algo nos faz infelizes, cabe a nós mudarmos nossas vidas, nossos passos. Se não conseguimos ter orgulho da pessoa que somos, cabe a nós fazermos algo a respeito, e o princípio é saber o que queremos e o que não queremos, e não nos contentarmos com menos do que isso.

Arte

Eu queria me agarrar em ilusões, com toda a força que posso concentrar nas minhas mãos. Queria usar cada centímetro dos meus músculos para agarrar ilusões de tal forma que nunca pudessem se transformar ou partir.
Queria escolher a minha realidade, desenhá-la à minha maneira com as cores que eu escolhesse, sem temer que um dia o desenho torne-se borrado ou nebuloso.
Pois existe muito mais encanto e fascínio no mundo que nossa mente pode produzir do que existe muitas vezes naquilo que de fato está a nossa volta. É muito mais fácil viver de sonhos, de ilusões e das expectativas que nosso coração pode criar do que naquilo que nossos olhos muitas vezes não querem enxergar.
Fomos criados assim, em meio a contos de fadas, a histórias de finais felizes e príncipes encantados. Somos como eternas crianças tentando abandonar a primeira infância, temendo pelas coisas que vemos ruir a nossa volta, à percepção de que nossos pais não são súper heróis e de que não somos capazes de voar.
Em algum momento foi implantada em nós a vontade de voar, de ter asas e de alcansar o céu. Uma parte de nós, por mais que o tempo passe e que creçamos, ainda acredita nessa capacidade. Precisa acreditar, senão o mundo torna-se cinzendo, duro, feito de concreto e asfalto.
Nem tudo aquilo que se quer é possível de ser conquistado, nem todos os sonhos são realizáveis, e nada tem a ver com a nossa força, coragem ou capacidade. Está muito mais relacionado com a realidade dos fatos.
Pessoas que gostamos ou amamos (ou pessoas que gostaríamos de gostar e amar) não são perfeitas, não possuem o dom de transformar as nossas vidas e nos devolver a capacidade de acreditarmos nas coisas que gostaríamos. Somos nós, sempre nós mesmos, os únicos capazes de transformar qualquer coisa em nós ou em nossa vida. Mas continuamos a teimar em encontrar alguem capaz de fazer isso por nós, ou alguém que nos sirva como alavanca para as transformações que precisamos em nós.
Quando caem essas projeções, crenças, nos vemos sozinhos novamente, e iniciamos novamente a procura por outra alternativa. Um ciclo constante de procura, desejos, ilusões e decepções. Ninguém é capaz de nos decepcionar, são apenas as nossas idéias e projeções que caem por terra. E como nos livrarmos dessas projeções, desses desejos, desses sonhos, se esta é a natureza do nosso ser?
Nenhum amigo, pai, mãe, ou seja quem for é capaz de nos desiludir, de nos decepcionar. É a idéia que fazemos daquela pessoa que se desfaz, que se desmancha em frente aos nossos olhos como pequenos castelos feitos na areia quando vem a água do mar.
Por isso é tão importante a compaixão, a compreenção, o perdão e a aceitação. Somos todos feitos da mesma matéria de desejos e sonhos. Somos todos frágeis, lutando nossas próprias batalhas, ora perdendo, ora conquistando.
Ver a fragilidade, fraqueza e defeitos de outra pessoa pode nos fazer escolher desencantarmo-nos com ela ou sermos tomados por uma imensa onda de compaixão e respeito, pois é através de outra pessoa que podemos ver a nós mesmos. Essa é a verdadeira essência do perdão e do amor.
Não importa quais sejam as fraquezas ou defeitos, não importam quão feios nos pareçam, pois somos feitos todos da mesma matéria. Uma massa de argila que cada um, ao longo da vida, procura moldar da melhor maneira possível, somos todos nós os escultores de nosso próprio ser, e podemos a todo instante escolher a forma com que vamos nos moldar.
Nesse percurso, cada um faz a melhor escultura possível, aquela que lhe parece a mais delicada e bonita ou aquela que parece a mais resistente e impactante, é a arte de viver.

Ser

Hoje acordamos felizes, ontem estávamos aborrecidos. Queremos que algo aconteça, dirigimos nossa atenção e forças para a realização de algum propósito, seja ele grande ou pequeno, seja uma conquista ou apenas sobreviver ao dia de hoje. Estamos constantemente atrás de algum feito, de alguma realização, de algum motivo para sermos pessoas mais felizes. Existe alguma coisa faltando agora, que se não fosse por isso, a vida seria melhor, quem sabe até perfeita. Vivemos muitas vezes nos alimentando de expectativas, planos, e até de ilusões. Esquecemos do hoje, desse momento de agora, que não vai mais voltar. E não há ninguém capaz de fazer o agora valer a pena para nós se não formos capazes de fazer isso por nós mesmos.
Se você precisa de alguém para poder sorrir, existe alguma coisa faltando em você mesmo. Se você precisa de alguma coisa para ser feliz, talvez valha a pena rever suas prioridades e contentar-se com o que possui – e ser feliz agora.
Carregamos culpas, arrependimentos, desilusões e sonhos. Carregamos coisas demais. Estamos de passagem, a vida que vivemos teve um início e terá seu fim um dia, ao menos da forma que conhecemos. Ter ambições e propósitos nos faz seguir em frente, ir adiante, mas sem equilíbrio, nos faz não vivermos a nossa vida enquanto ela está acontecendo.
Temos todos conosco potenciais enormes, muitas vezes desconhecidos até de nós mesmos, e que o medo nos faz não percebê-los ou desenvolvê-los. Existem confusões, dúvidas, justificativas demais para administrarmos de forma a mantermos um certo conforto e alguma segurança em nossas vidas, e assim, pouco a pouco, envelhecemos.
Fácil é muitas vezes olhar para a vida de outra pessoa e identificar erros e acertos, o que há faltando e o que existe em abundância. Fácil avaliar e julgar outra pessoa, difícil mesmo é sermos imparciais em nosso próprio julgamento – porque nossa história e experiência sempre falam através de nós.
O que já vivemos já aconteceu, mas temos o controle e a escolha sobre a nossa vida nesse instante – e a partir dele.
Existe uma diferença sutil entre as coisas que são importantes para a nossa vida e as coisas que são importantes para nós. Sobre o que é a nossa vida e quem somos nós.
Somos mais, muito mais, do que muitas vezes aparentamos ser.

Falar é fácil

É muito fácil falar sobre aquilo que se quer. O que se deseja, o que se espera. Mas a liberdade maior existe no não querer. No não esperar. Em não precisar. Toda gente quer alguma coisa, espera alguma coisa, busca ou procura alguma coisa. Quando você encontra em você mesmo a certeza de que as coisas, independente de poderem ser melhores ou não, estão bem como estão, você torna-se livre. Torna-se dono da própria vida, e aprende a aceitar, a simplesmente ser.
Tudo passa a ser um presente, ou apenas um problema que cedo ou tarde passará. Você não é o momento que vive. O momento passará - você não. Você poderá mudar, aprender, acertar, errar.
Pode rir ou chorar. Outra dia virá, e será outro dia.
Mais do que a situação que você vive, você é a somatória das escolhas que faz.
Se você escolhe apenas ser ao invés de tentar ser uma necessidade, uma vontade, um medo ou uma incerteza, você é livre.
E torna-se você, e não aquilo que vive.

Responsabilidade

Não é frieza. Não é um estado de congelar a si mesmo. Pode-se chamar de consciência, ou justiça, ou senso prático. Não importa o nome dado, uma vez que se pratique. Por um instante, deixemos de lado os contos de fadas, as esperanças, os sonhos, os sentimentalismos. Tentemos esquecer os anseios e os desejos, tentemos racionalizar um pouco.
Antes de mais nada, é preciso esclarecer uma coisa. Não pretendo com minhas palavras ou reflexões nenhuma concordância, nenhuma parabenização ou aplauso, longe disso. E se houver alguma reflexão, por menor que seja, já terei atingido qualquer objetivo.
A caminhada é árdua sim, é difícil, é complexa, é dura. E provavelmente tenha mesmo que ser, uma vez que temos a chance de percebemos durante a vida que tudo aquilo que exige esforço, empenho e sacrifício geralmente trás as mais duradouras e profundas recompensas.
Tente ter a coragem de assumir a responsabilidade por sua própria vida, por sua própria personalidade, por seus próprios sucessos e fracassos. Tente perguntar-se se você é hoje a pessoa que você gostaria de ser. As vezes pode facilitar se você se lembrar de quando você era criança, que tipo de pessoa você imaginou que seria hoje (não se trata daquilo que você possui ou não, mas de quem você é). Pergunte-se, e não evite conhecer a resposta. Você é hoje a pessoa que você quer ser? Tão poucas o são... E por quê?
Porque nos tornarmos a pessoa que gostaríamos ser exige sacrifício. Exige esforço. Mais que isso, exige de nós que abandonemos a nossa zona de conforto. E isso dói.
Não importa quais os problemas ou aflições que atinjam a sua vida nesse momento, você certamente se imaginou ser uma pessoa diferente, muito mais capaz de enfrentar a situação a qual vive hoje. E o que você espera ainda para tornar-se a pessoa que sempre quis ser?
Que a vida mude, que a situação seja outra, que aconteça alguma coisa? Que a vida te entregue embrulhados para presente todos os seus sonhos? Isso apenas provocaria uma coisa – acomodação. Faz com que você mergulhe ainda mais em sua zona de conforto e em suas ilusões de conforto e segurança. Ninguém torna-se a pessoa que gostaria de ser sem esforço (esforço mesmo!), sem abrir mão de muita coisa, sem caminhar para essa direção.
Você gostaria que sua vida fosse diferente? Provavelmente sim, mas e então? É provável que você tenha como ideais de vida a vida que a pessoa que você gostaria de ser teria. Provavelmente, a vida que você quer e busca é a vida que a pessoa que um dia você imaginou ou quis ser tivesse. O que você espera ainda?
Seja. Dê o primeiro passo, inicie a caminhada.
A pessoa que você quer ser é independente? Então seja. A pessoa que você quer ser é amorosa? Então seja. A pessoa que você quer ser é compreensiva? Seja. É amiga, leal, forte, segura? Então SEJA. Não espere que a vida provoque modificações que só você mesmo pode operar.
Sua vida hoje impede que você seja tudo aquilo que quer? Mude sua vida. Reavalie seus princípios, questione-se, pergunte-se. Busque.
E prometo que vai haver dor, que vão haver as mais complexas dificuldades, medos e incertezas. E também prometo que ao percorrer o caminho, você perceberá que é cada vez mais a pessoa que sempre quis ser. E poderá ter perdido muito no caminho, mas a sensação que você encontrará será um amor e respeito doces, infinitos, profundos, por você mesmo.
Dê o primeiro passo, e os outros passos se seguirão.

XX

A Verdadeira Vontade
Hoje eu gostaria de falar sobre a verdadeira vontade que existe dentro de cada um de nós. Alguns chamam de vocação, outros de essência, outros ainda dão o nome de potencial criador. O nome não é importante, cada um que chame como quiser. O importante é conseguirmos reconhecer dentro de nós mesmos qual é essa vontade, essa vocação.
Imagine por um instante que essa vontade é como uma semente plantada em nosso coração pelo Criador de todas as coisas. É, portanto, através dessa semente que temos a capacidade de estarmos conectados com Deus (ou como queira chamá-Lo). É como se essa vocação fosse a parte mais pura e sublime existente dentro de nós, uma força capaz de possibilitar o nosso amadurecimento e a nossa compreensão.
Quando agimos de acordo com a nossa verdadeira vontade é como se estivéssemos em comunhão com todo o Universo, o que faz com que possamos ultrapassar as dificuldades em nossas vidas e que abre à nossa frente as portas para o que deseja de fato o nosso coração. O desafio que temos é, portanto conseguirmos reconhecer essa verdadeira vontade e separá-la das vontades menos nobres que possuímos, das necessidades mais corriqueiras e da satisfação apenas das nossas vaidades.
Conhecermos a nós mesmos é estarmos sempre atentos às nossas reações e ao “por quê” das reações que temos.

XIX

Tempo
Estamos mais uma vez, chegando ao final de um ano. É muito comum as pessoas se perceberem afirmando que o tempo passa cada vez mais depressa. Por quê? Existe uma explicação.
Quando vivemos em uma rotina, vivemos de acordo com as situações que nos vão surgindo ao longo do dia, enfrentando os desafios de forma natural e sem realmente pararmos para analisar os acontecimentos.
É muito mais fácil aproveitarmos o dia intensamente quando estamos em um lugar diferente, com pessoas diferentes, fazendo algo fora do nosso habitual. Isso acontece porque como se trata de uma “novidade” nosso cérebro fica mais atento, mais alerta, percebendo todos os detalhes. E não existe essa necessidade em nosso dia a dia, em nossas rotinas.
O tempo é uma ilusão que criamos, tanto que em determinados dias uma hora pode significar tempo demais ou tempo de menos. Quando estamos aproveitando, nos divertindo, realmente tiramos proveito de cada instante daquela hora, mesmo que passe depressa. Quando nós nos concentramos apenas no tic-tac do relógio, essa mesma hora parece interminável. Mas os ponteiros do relógio não apressam nem diminuem o seu ritmo, somos nós que alteramos a nossa maneira de perceber o tempo.
Quando dizemos que o ano passou rápido demais, é como dizermos que a nossa vida está passando rápido demais. E passando por nós!!! Por isso é tão fundamental conhecermos as nossas prioridades, os nossos desejos, nossos sonhos. Só assim poderemos decidir a forma com que vamos utilizar o nosso tempo, como vamos nos comportar durante a próxima hora, dia, mês, ano. Estaremos com o nosso piloto automático de rotina ligado? Ou estaremos ligados a nós mesmos?
O tempo não passa, as pessoas não passam, a vida não passa. Somos nós que passamos por tudo isso, e está apenas em nossas mãos escolhermos a maneira com que vamos passar.

XVIII

Felicidade

Acontece com vocês de às vezes se sentirem invadidos por uma sensação de nostalgia, de saudade de tempos que não voltam mais? Aconteceu isso comigo recentemente, enquanto me lembrava de momentos em que as coisas podiam não estar perfeitas, mas em que havia alegria, havia felicidade.
Momentos preciosos que com ou sem dificuldades, passaram e deixaram saudades. Muita gente as vezes diz sobre algum período de suas vidas que "eram felizes e não sabiam". Eu sempre dentro do possível tentei estar consciente da minha felicidade e hoje percebo que isso simplesmente não faz a menor diferença.
Os instantes de alegria que vivemos, estando ou não nós conscientes do que eles representam e de que são momentos (por isso passam) não faz com que o tempo corra mais depressa ou mais devagar. Apenas faz com que possamos tirar daqueles instantes o maior proveito possível, conscientemente.
Hoje pode ser um momento que amanhã poderá deixar saudades. Pode ser um momento em que tudo o que você deseja seja que o "hoje passe mais depressa, logo". A grande vantagem de estarmos conscientes do período que estamos atravessando em nossas vidas é podermos tirar proveito das lições e experiências que o momento presente tem para nos oferecer.
Poderia ser melhor? Poderia ser pior? Sem dúvida. Mas não sendo nem o melhor possível e nem o pior, qual é o máximo que você pode fazer para realmente viver esse período? Você está sendo o seu melhor? Ou o seu pior? Não são, de certa forma, reflexos das nossas atitudes as situações que nos rodeiam? Como esperar o máximo de algo se não é o máximo aquilo que você faz? E como se lamentar pelos infortúnios se tantas vezes demos o "menos" de nós mesmos?
Seja um período bom ou ruim, passará. E aí fica a pergunta... esse período vai passar por você, ou será você que irá ultrapassá-lo?

XVII

Compaixão

Eu gostaria de hoje aproveitar esse espaço para falar sobre um sentimento de grande relevância em nossas vidas, a compaixão. Muitas vezes consideramos este sentimento menos importante do que realmente é, e ocorre ainda muitas vezes de misturarmos a compaixão com a piedade. Não é dessa compaixão que quero falar.
Se formos buscar o significado dessa palavra, iremos encontrar: "s.f. Sentimento de pesar que nos causam os males alheios; comiseração, piedade, dó". Mas existe também um significado mais profundo, que é quase uma arte. A arte e a virtude de compartilhar o sofrimento do outro. À essa arte, acredito que podemos dar o nome de amor.
Um amor que é maior do que o desejo, maior do que a nossa vontade de nos realizarmos através do outro.
Muitas vezes, quando nos preocupamos com alguém estamos na verdade colocando uma projeção nossa naquela outra pessoa, estamos buscando, através do outro, dar vazões para as nossas próprias e íntimas preocupações. A compaixão não é nada disso. É o dom de compartilhar um sofrimento sentido por outra pessoa mesmo que a gente não concorde e nem compreenda aquele sofrimento. É sentir de uma forma mais elevada nós mesmos em nome do outro. É, por um instante que seja, sentir o outro como se estivéssemos sentindo a nós próprios em toda a nossa totalidade. E falta em nosso mundo muito de compaixão. Muito de amor.
Talvez não tenhamos o poder de trazer mais dessa compaixão pra o mundo, mas temos sim o poder de trazer mais compaixão para as nossas próprias vidas.

XVI

Coragem
Nessa semana eu gostaria de trazer para vocês algo que considero fundamental para a vida. Coragem. Não aquela coragem que faz uma pessoa enfrentar um bandido ou entrar numa briga, que é mais prepotência e arrogância que coragem.
A coragem da qual falo é aquela necessária para que possamos viver a vida, enfrentar as dificuldades, os problemas. Essa coragem existe dentro de todos nós, é uma força, uma confiança maior de que possuímos todas as ferramentas necessárias para ultrapassar e vencer os obstáculos que surgirem em nossa frente. E essa coragem tão fundamental precisa ser alimentada, precisa ser exercitada e fortalecida.
A acomodação a qual muitas vezes nos submetemos, o medo e a insegurança são os principais inimigos dessa coragem. Como seres em constante evolução precisamos manter as engrenagens da nossa vida e de nosso aprendizado em constante movimento, e a coragem é o ingrediente "extra" que vem nos fortalecer quando a nossa vida se depara com um momento de dificuldade e dúvida. É essa coragem que nos proporciona a confiança de que saberemos como agir, que tomaremos a atitude correta, que venceremos a dificuldade ou o problema que surgiu na nossa vida.
Uma maneira de fortalecermos essa coragem é estarmos atentos a quem somos, às atitudes que temos no nosso dia a dia, é prestarmos atenção aos comportamentos que temos e estarmos sempre conscientes, alertas, assumindo as nossas responsabilidades por nossas atitudes e pelas possíveis conseqüências que nosso comportamento trará.
Quando agimos de acordo com a nossa verdade interior de uma forma consciente, a confiança de que estamos agindo de forma correta é natural. E é daí que nasce e se fortalece a nossa coragem. Sejam corajosos, estejam confiantes e mantenham-se alertas sobre as atitudes que tomam a cada instante do dia, e os caminhos se abrirão a frente de sua força e coragem.

XV

Estabilidade & Segurança
Dessa vez escrevo atendendo a um pedido. Pediram-me para falar sobre a estabilidade. Não consigo falar sobre isso sem que na minha cabeça venha imediatamente a palavra segurança. E segurança, a meu ver, não passa de uma ilusão. Assim como a estabilidade. Pois a estabilidade de hoje pode simplesmente não mais existir amanhã.
Somos seres em constante mutação, e idealmente, em constante evolução e aprendizado. Éramos menos sábios um ano atrás do que somos agora, passamos por experiências e situações que nos proporcionaram novos conhecimentos, ao menos novos conhecimentos sobre nós mesmos (ou ao menos, assim deveria ser). E muitas vezes podemos apenas não nos dar conta disso. E isso acontece com muita freqüência, infelizmente.
Muitas vezes a vida passa por nós e não nos damos conta de que deixamos passar um tempo precioso através de nós, como se assumíssemos a função de um mero expectador da nossa própria vida, e esquecemos que não estamos assistindo a um filme, mas que desse filme somos os atores e atrizes principais.
Conforme a vida acontece, se nós nos permitirmos "acontecer" junto com ela, tirando de nossas vidas todas as lições de que somos capazes, vamos aprendendo, evoluindo, mudando. E a estabilidade nesse caso não pode existir com a mudança. E a segurança possível é apenas a segurança que podemos proporcionar a nós mesmos, pois se a nossa segurança depende de outras pessoas ou de situações das quais não temos nem poder e nem controle, estaremos nos apegando apenas a ilusões, e ilusões que passam com o tempo.
Se estivermos conscientes, alertas, vamos perceber as mudanças e saberemos nos adaptar as novas situações que surgirem, sem deixar que fique em nossas bocas o gosto amargo da desilusão ou da amargura.
Se aceitarmos que nem mesmo nós temos o controle total sobre o que nos cerca e se nos permitirmos cada vez mais aprendermos e evoluirmos com as situações que a vida nos trouxer, a única estabilidade que desejaremos será a constância de continuarmos sempre evoluindo, progredindo, mudando, crescendo. Sem âncoras que nos segurem e nos impeçam de crescer.

XIV

Passado

Tem dias em que a gente simplesmente sente saudades. Não necessariamente saudades de pessoas ou de lugares que já não fazem mais parte das nossas vidas.
A maior saudade, a saudade que muitas vezes mais dói é a saudade de quem éramos em determinado momento das nossas vidas e tudo que ignorávamos que ia acontecer a seguir. Saudades de momentos em que a gente simplesmente estava ali, e viveu aquele momento sem saber o que viria, a gente só viveu.
Sorrisos que hoje já não mais emitem nenhum som, o barulho que existiu naquele instante e que agora é silêncio. Saudades de um abraço que hoje já não mais nos abraça, de um calor humano que hoje foi substituído por outro, ou simplesmente pelo frio. Saudades de quem éramos.
Do que poderíamos ter sido e não fomos. E as vezes sentir saudades é bom, as vezes nem tanto. Mas se existem alguns momentos assim na nossa memória, se por um instante imaginarmos que estamos ali novamente, vivendo aquele instante exatamente como aconteceu, faríamos realmente alguma coisa diferente, sendo quem éramos na época? Acredito que dificilmente. Aproveitamos o que na época acreditamos que devíamos aproveitar. Talvez depois disso alguma coisa tenha acontecido, alguém muito especial tenha deixado de existir em nossas vidas. Mas não tínhamos como saber.
Sabemos apenas que tudo isso pode estar vivo em nós, e que dentro de nós poderá viver para sempre. A saudade também pode ser um lembrete de que agora existem pessoas que são especiais para as nossas vidas mesmo que a gente não perceba isso com toda a clareza, e que o hoje pode ser alguma de nossas doces lembranças para o amanhã.
Que a gente tenha a sabedoria de viver o instante presente, e que a gente tenha a força para manter acesa dentro de nós a lembrança e a doçura do que já nos foi tão importante um dia.