30 de set. de 2010

Oceano

É nessa movimentação do dia a dia que tanto as pessoas se desencontram, é no passar dos dias e no correr do tempo que há muito mais desencontros que encontros. Somos pessoas no mundo, e por alguma razão oculta, obscura, partilhamos o mesmo instante nesse mundo. Se não há mais tantos empecilhos da distância e no espaço, estamos todos, como náufragos, compartilhando no mesmo instante o mesmo oceano. Tantas pessoas, rostos desconhecidos, olhares perdidos em si mesmos, passos sem rumo certo, todos somos tão intimamente próximos, tão absurdamente estranhos uns aos outros. Quero olhar os desconhecidos nas ruas e ver a mim mesma, uma sombra de mim. Não entendo porque os estranhos simplesmente passam uns pelos outros sem nem mesmo se dignificarem a um olhar nos olhos mais atento, mais cuidadoso. Pode ser que meu destino seja o manicômio, mas porque estranhos não se abraçam? Por que não se olham nos olhos? Por que não assumem perante a todos, perante ao mundo, suas dores? Por que se ocultar? Somos náufragos no mesmo oceano, por que não somos a tábua de salvação uns aos outros? Por que? Por que criamos em nós tamanha clausura, tamanho preconceito, por que teimamos em não vermos os outros como vemos a nós mesmos? Estamos todos dividindo o mesmo tempo nesse mundo, por que então parecemos aos outros tão estranhos? Por que não rir e não chorar com um desconhecido se somos todos feitos da mesma matéria, das mesmas emoções, se no fundo, pertencemos todos ao mesmo corpo etéreo? Somos náufragos no mesmo oceano, olho para os lados, todos olham apenas para si mesmos. Não vejo olhares compartilhados, entendimentos subentendidos, somos náufragos, e estamos nos afogando.

Morte & Perda

Morte

As vezes a vida nos surpreende, e perdemos pelo caminho pessoas que nos fizeram ver a vida de uma outra forma, pessoas que fizeram parte de nossos instantes, de nosso crescimento, pessoas que fizeram parte de nós e que dividiram conosco instantes únicos de nossa jornada.
E, sem aviso, sem que estejamos preparados, simplesmente a pessoa deixa de existir, e não teremos mais a certeza e a segurança de saber que se quisermos telefonar, abraçar ou estar juntos de novo, simplesmente não vai acontecer. E a dor dessa perda, a certeza de que o tempo vivido não é recuperável, que as coisas ditas ou não ditas são imutáveis, deixa uma sensação de impotência e vazio enormes dentro de nós.
Não existe forma de lidarmos com isso, não existe conforto possível, por mais que tenhamos fé ou apoio, a ausência será permanente. A única coisa que podemos efetivamente fazer é termos em nós as lembranças vividas, e honrar a existência dessa pessoa em nossa vida fazendo cada vez o melhor que pudermos, sendo cada vez mais a melhor pessoa que possamos ser. Vai continuar a existir um vazio, vão existir espaços não preenchidos, que somente a gente poderá preencher com as lembranças e memórias que escolhermos guardar.
A maior homenagem que podemos fazer à pessoa que já não mais existe entre a gente e que não mais compartilha de nossa vida conosco é fazermos valer a pena cada instante vivido, cada troca de carinho, de amizade e de amor. É transformarmos dentro de nós o sentimento da dor e da perda em motivação e crescimento, em aprendizado e evolução. Podemos tirar inúmeras lições olhando para a vida que a pessoa teve e as escolhas que fez ao longo do caminho, mas podemos também aprender muito olhando para nós mesmos em relação a pessoa que já não está mais aqui.
Podemos aprender a olhar para cada ser humano com um carinho enorme, sabendo que amanhã essa pessoa também poderá não estar mais aqui, ou ainda, percebendo que amanhã a pessoa para quem olhamos hoje poderá sofrer alguma perda que será irreparável, irremediável.
Estamos todos aprendendo a viver quando a morte nos alcança, estamos todos despreparados e enfrentando jornadas semelhantes. Não existe receita que nos ensine a lidar com a dor ou com a perda, mas existe a vontade de fazer com que através desse sofrimento, consigamos ser pessoas melhores, tanto para nós quanto para os outros.
Acredito que o que chamamos de luto tenha uma razão, que é a de nos permitirmos nesse período avaliarmos toda a relação existente com a pessoa que partiu, e assim nos prepararmos para seguir adiante com nossas vidas, tendo essa pessoa dentro de nós como a motivação para que sejamos cada vez mais e maiores como indivíduos.

Perda

O quanto perdemos ao longo da vida? Quantos amigos, quantos sonhos ficam aos poucos para trás, tanto que nem mesmo conseguimos mais nos lembrar? O quanto deixamos para trás a pessoa que costumávamos ser, para abraçar os acontecimentos da vida sem nos darmos conta, apenas nos conformando com a forma com que as coisas acontecem?
O quanto aceitamos perdas e despedidas em nossas vidas, sem pararmos para avaliar e nos questionarmos se com isso estamos abrindo de uma certa forma mão de nós mesmos e de quem somos?
Fazemos concessões demais, seja para mantermos o que nos é conhecido seja para não enfrentarmos situações que possam nos assustar. Muitas vezes nem sequer nos questionamos, aprendemos a abrir mão de sonhos e em aceitar derrotas e perdas, apenas porque aprendemos que somos capazes de sobreviver.
Mas por que razão pensamos assim, de que se somos capazes de sobreviver então está tudo bem? Por que nos acostumamos a nos contentar com menos do que aquilo que queremos ou do que acreditamos sermos merecedores?
Quantas atitudes já tivemos em nossas vidas de que somos verdadeiramente capazes de nos orgulhar? O medo e a culpa são os grandes inimigos de nossa existência, são sentimentos que nos fazem paralisar nossas vidas ou que nos mantém fixos sempre no mesmo lugar. Por mais que tentemos, não somos capazes de acertar sempre, e nem podemos a todo instante agradarmos as pessoas à nossa volta. Não há razão para carregarmos culpas, nem motivo para temermos, uma vez que a própria vida é uma incerteza.
Se algo nos faz infelizes, cabe a nós mudarmos nossas vidas, nossos passos. Se não conseguimos ter orgulho da pessoa que somos, cabe a nós fazermos algo a respeito, e o princípio é saber o que queremos e o que não queremos, e não nos contentarmos com menos do que isso.

Arte

Eu queria me agarrar em ilusões, com toda a força que posso concentrar nas minhas mãos. Queria usar cada centímetro dos meus músculos para agarrar ilusões de tal forma que nunca pudessem se transformar ou partir.
Queria escolher a minha realidade, desenhá-la à minha maneira com as cores que eu escolhesse, sem temer que um dia o desenho torne-se borrado ou nebuloso.
Pois existe muito mais encanto e fascínio no mundo que nossa mente pode produzir do que existe muitas vezes naquilo que de fato está a nossa volta. É muito mais fácil viver de sonhos, de ilusões e das expectativas que nosso coração pode criar do que naquilo que nossos olhos muitas vezes não querem enxergar.
Fomos criados assim, em meio a contos de fadas, a histórias de finais felizes e príncipes encantados. Somos como eternas crianças tentando abandonar a primeira infância, temendo pelas coisas que vemos ruir a nossa volta, à percepção de que nossos pais não são súper heróis e de que não somos capazes de voar.
Em algum momento foi implantada em nós a vontade de voar, de ter asas e de alcansar o céu. Uma parte de nós, por mais que o tempo passe e que creçamos, ainda acredita nessa capacidade. Precisa acreditar, senão o mundo torna-se cinzendo, duro, feito de concreto e asfalto.
Nem tudo aquilo que se quer é possível de ser conquistado, nem todos os sonhos são realizáveis, e nada tem a ver com a nossa força, coragem ou capacidade. Está muito mais relacionado com a realidade dos fatos.
Pessoas que gostamos ou amamos (ou pessoas que gostaríamos de gostar e amar) não são perfeitas, não possuem o dom de transformar as nossas vidas e nos devolver a capacidade de acreditarmos nas coisas que gostaríamos. Somos nós, sempre nós mesmos, os únicos capazes de transformar qualquer coisa em nós ou em nossa vida. Mas continuamos a teimar em encontrar alguem capaz de fazer isso por nós, ou alguém que nos sirva como alavanca para as transformações que precisamos em nós.
Quando caem essas projeções, crenças, nos vemos sozinhos novamente, e iniciamos novamente a procura por outra alternativa. Um ciclo constante de procura, desejos, ilusões e decepções. Ninguém é capaz de nos decepcionar, são apenas as nossas idéias e projeções que caem por terra. E como nos livrarmos dessas projeções, desses desejos, desses sonhos, se esta é a natureza do nosso ser?
Nenhum amigo, pai, mãe, ou seja quem for é capaz de nos desiludir, de nos decepcionar. É a idéia que fazemos daquela pessoa que se desfaz, que se desmancha em frente aos nossos olhos como pequenos castelos feitos na areia quando vem a água do mar.
Por isso é tão importante a compaixão, a compreenção, o perdão e a aceitação. Somos todos feitos da mesma matéria de desejos e sonhos. Somos todos frágeis, lutando nossas próprias batalhas, ora perdendo, ora conquistando.
Ver a fragilidade, fraqueza e defeitos de outra pessoa pode nos fazer escolher desencantarmo-nos com ela ou sermos tomados por uma imensa onda de compaixão e respeito, pois é através de outra pessoa que podemos ver a nós mesmos. Essa é a verdadeira essência do perdão e do amor.
Não importa quais sejam as fraquezas ou defeitos, não importam quão feios nos pareçam, pois somos feitos todos da mesma matéria. Uma massa de argila que cada um, ao longo da vida, procura moldar da melhor maneira possível, somos todos nós os escultores de nosso próprio ser, e podemos a todo instante escolher a forma com que vamos nos moldar.
Nesse percurso, cada um faz a melhor escultura possível, aquela que lhe parece a mais delicada e bonita ou aquela que parece a mais resistente e impactante, é a arte de viver.

Ser

Hoje acordamos felizes, ontem estávamos aborrecidos. Queremos que algo aconteça, dirigimos nossa atenção e forças para a realização de algum propósito, seja ele grande ou pequeno, seja uma conquista ou apenas sobreviver ao dia de hoje. Estamos constantemente atrás de algum feito, de alguma realização, de algum motivo para sermos pessoas mais felizes. Existe alguma coisa faltando agora, que se não fosse por isso, a vida seria melhor, quem sabe até perfeita. Vivemos muitas vezes nos alimentando de expectativas, planos, e até de ilusões. Esquecemos do hoje, desse momento de agora, que não vai mais voltar. E não há ninguém capaz de fazer o agora valer a pena para nós se não formos capazes de fazer isso por nós mesmos.
Se você precisa de alguém para poder sorrir, existe alguma coisa faltando em você mesmo. Se você precisa de alguma coisa para ser feliz, talvez valha a pena rever suas prioridades e contentar-se com o que possui – e ser feliz agora.
Carregamos culpas, arrependimentos, desilusões e sonhos. Carregamos coisas demais. Estamos de passagem, a vida que vivemos teve um início e terá seu fim um dia, ao menos da forma que conhecemos. Ter ambições e propósitos nos faz seguir em frente, ir adiante, mas sem equilíbrio, nos faz não vivermos a nossa vida enquanto ela está acontecendo.
Temos todos conosco potenciais enormes, muitas vezes desconhecidos até de nós mesmos, e que o medo nos faz não percebê-los ou desenvolvê-los. Existem confusões, dúvidas, justificativas demais para administrarmos de forma a mantermos um certo conforto e alguma segurança em nossas vidas, e assim, pouco a pouco, envelhecemos.
Fácil é muitas vezes olhar para a vida de outra pessoa e identificar erros e acertos, o que há faltando e o que existe em abundância. Fácil avaliar e julgar outra pessoa, difícil mesmo é sermos imparciais em nosso próprio julgamento – porque nossa história e experiência sempre falam através de nós.
O que já vivemos já aconteceu, mas temos o controle e a escolha sobre a nossa vida nesse instante – e a partir dele.
Existe uma diferença sutil entre as coisas que são importantes para a nossa vida e as coisas que são importantes para nós. Sobre o que é a nossa vida e quem somos nós.
Somos mais, muito mais, do que muitas vezes aparentamos ser.

Falar é fácil

É muito fácil falar sobre aquilo que se quer. O que se deseja, o que se espera. Mas a liberdade maior existe no não querer. No não esperar. Em não precisar. Toda gente quer alguma coisa, espera alguma coisa, busca ou procura alguma coisa. Quando você encontra em você mesmo a certeza de que as coisas, independente de poderem ser melhores ou não, estão bem como estão, você torna-se livre. Torna-se dono da própria vida, e aprende a aceitar, a simplesmente ser.
Tudo passa a ser um presente, ou apenas um problema que cedo ou tarde passará. Você não é o momento que vive. O momento passará - você não. Você poderá mudar, aprender, acertar, errar.
Pode rir ou chorar. Outra dia virá, e será outro dia.
Mais do que a situação que você vive, você é a somatória das escolhas que faz.
Se você escolhe apenas ser ao invés de tentar ser uma necessidade, uma vontade, um medo ou uma incerteza, você é livre.
E torna-se você, e não aquilo que vive.

Responsabilidade

Não é frieza. Não é um estado de congelar a si mesmo. Pode-se chamar de consciência, ou justiça, ou senso prático. Não importa o nome dado, uma vez que se pratique. Por um instante, deixemos de lado os contos de fadas, as esperanças, os sonhos, os sentimentalismos. Tentemos esquecer os anseios e os desejos, tentemos racionalizar um pouco.
Antes de mais nada, é preciso esclarecer uma coisa. Não pretendo com minhas palavras ou reflexões nenhuma concordância, nenhuma parabenização ou aplauso, longe disso. E se houver alguma reflexão, por menor que seja, já terei atingido qualquer objetivo.
A caminhada é árdua sim, é difícil, é complexa, é dura. E provavelmente tenha mesmo que ser, uma vez que temos a chance de percebemos durante a vida que tudo aquilo que exige esforço, empenho e sacrifício geralmente trás as mais duradouras e profundas recompensas.
Tente ter a coragem de assumir a responsabilidade por sua própria vida, por sua própria personalidade, por seus próprios sucessos e fracassos. Tente perguntar-se se você é hoje a pessoa que você gostaria de ser. As vezes pode facilitar se você se lembrar de quando você era criança, que tipo de pessoa você imaginou que seria hoje (não se trata daquilo que você possui ou não, mas de quem você é). Pergunte-se, e não evite conhecer a resposta. Você é hoje a pessoa que você quer ser? Tão poucas o são... E por quê?
Porque nos tornarmos a pessoa que gostaríamos ser exige sacrifício. Exige esforço. Mais que isso, exige de nós que abandonemos a nossa zona de conforto. E isso dói.
Não importa quais os problemas ou aflições que atinjam a sua vida nesse momento, você certamente se imaginou ser uma pessoa diferente, muito mais capaz de enfrentar a situação a qual vive hoje. E o que você espera ainda para tornar-se a pessoa que sempre quis ser?
Que a vida mude, que a situação seja outra, que aconteça alguma coisa? Que a vida te entregue embrulhados para presente todos os seus sonhos? Isso apenas provocaria uma coisa – acomodação. Faz com que você mergulhe ainda mais em sua zona de conforto e em suas ilusões de conforto e segurança. Ninguém torna-se a pessoa que gostaria de ser sem esforço (esforço mesmo!), sem abrir mão de muita coisa, sem caminhar para essa direção.
Você gostaria que sua vida fosse diferente? Provavelmente sim, mas e então? É provável que você tenha como ideais de vida a vida que a pessoa que você gostaria de ser teria. Provavelmente, a vida que você quer e busca é a vida que a pessoa que um dia você imaginou ou quis ser tivesse. O que você espera ainda?
Seja. Dê o primeiro passo, inicie a caminhada.
A pessoa que você quer ser é independente? Então seja. A pessoa que você quer ser é amorosa? Então seja. A pessoa que você quer ser é compreensiva? Seja. É amiga, leal, forte, segura? Então SEJA. Não espere que a vida provoque modificações que só você mesmo pode operar.
Sua vida hoje impede que você seja tudo aquilo que quer? Mude sua vida. Reavalie seus princípios, questione-se, pergunte-se. Busque.
E prometo que vai haver dor, que vão haver as mais complexas dificuldades, medos e incertezas. E também prometo que ao percorrer o caminho, você perceberá que é cada vez mais a pessoa que sempre quis ser. E poderá ter perdido muito no caminho, mas a sensação que você encontrará será um amor e respeito doces, infinitos, profundos, por você mesmo.
Dê o primeiro passo, e os outros passos se seguirão.

XX

A Verdadeira Vontade
Hoje eu gostaria de falar sobre a verdadeira vontade que existe dentro de cada um de nós. Alguns chamam de vocação, outros de essência, outros ainda dão o nome de potencial criador. O nome não é importante, cada um que chame como quiser. O importante é conseguirmos reconhecer dentro de nós mesmos qual é essa vontade, essa vocação.
Imagine por um instante que essa vontade é como uma semente plantada em nosso coração pelo Criador de todas as coisas. É, portanto, através dessa semente que temos a capacidade de estarmos conectados com Deus (ou como queira chamá-Lo). É como se essa vocação fosse a parte mais pura e sublime existente dentro de nós, uma força capaz de possibilitar o nosso amadurecimento e a nossa compreensão.
Quando agimos de acordo com a nossa verdadeira vontade é como se estivéssemos em comunhão com todo o Universo, o que faz com que possamos ultrapassar as dificuldades em nossas vidas e que abre à nossa frente as portas para o que deseja de fato o nosso coração. O desafio que temos é, portanto conseguirmos reconhecer essa verdadeira vontade e separá-la das vontades menos nobres que possuímos, das necessidades mais corriqueiras e da satisfação apenas das nossas vaidades.
Conhecermos a nós mesmos é estarmos sempre atentos às nossas reações e ao “por quê” das reações que temos.

XIX

Tempo
Estamos mais uma vez, chegando ao final de um ano. É muito comum as pessoas se perceberem afirmando que o tempo passa cada vez mais depressa. Por quê? Existe uma explicação.
Quando vivemos em uma rotina, vivemos de acordo com as situações que nos vão surgindo ao longo do dia, enfrentando os desafios de forma natural e sem realmente pararmos para analisar os acontecimentos.
É muito mais fácil aproveitarmos o dia intensamente quando estamos em um lugar diferente, com pessoas diferentes, fazendo algo fora do nosso habitual. Isso acontece porque como se trata de uma “novidade” nosso cérebro fica mais atento, mais alerta, percebendo todos os detalhes. E não existe essa necessidade em nosso dia a dia, em nossas rotinas.
O tempo é uma ilusão que criamos, tanto que em determinados dias uma hora pode significar tempo demais ou tempo de menos. Quando estamos aproveitando, nos divertindo, realmente tiramos proveito de cada instante daquela hora, mesmo que passe depressa. Quando nós nos concentramos apenas no tic-tac do relógio, essa mesma hora parece interminável. Mas os ponteiros do relógio não apressam nem diminuem o seu ritmo, somos nós que alteramos a nossa maneira de perceber o tempo.
Quando dizemos que o ano passou rápido demais, é como dizermos que a nossa vida está passando rápido demais. E passando por nós!!! Por isso é tão fundamental conhecermos as nossas prioridades, os nossos desejos, nossos sonhos. Só assim poderemos decidir a forma com que vamos utilizar o nosso tempo, como vamos nos comportar durante a próxima hora, dia, mês, ano. Estaremos com o nosso piloto automático de rotina ligado? Ou estaremos ligados a nós mesmos?
O tempo não passa, as pessoas não passam, a vida não passa. Somos nós que passamos por tudo isso, e está apenas em nossas mãos escolhermos a maneira com que vamos passar.

XVIII

Felicidade

Acontece com vocês de às vezes se sentirem invadidos por uma sensação de nostalgia, de saudade de tempos que não voltam mais? Aconteceu isso comigo recentemente, enquanto me lembrava de momentos em que as coisas podiam não estar perfeitas, mas em que havia alegria, havia felicidade.
Momentos preciosos que com ou sem dificuldades, passaram e deixaram saudades. Muita gente as vezes diz sobre algum período de suas vidas que "eram felizes e não sabiam". Eu sempre dentro do possível tentei estar consciente da minha felicidade e hoje percebo que isso simplesmente não faz a menor diferença.
Os instantes de alegria que vivemos, estando ou não nós conscientes do que eles representam e de que são momentos (por isso passam) não faz com que o tempo corra mais depressa ou mais devagar. Apenas faz com que possamos tirar daqueles instantes o maior proveito possível, conscientemente.
Hoje pode ser um momento que amanhã poderá deixar saudades. Pode ser um momento em que tudo o que você deseja seja que o "hoje passe mais depressa, logo". A grande vantagem de estarmos conscientes do período que estamos atravessando em nossas vidas é podermos tirar proveito das lições e experiências que o momento presente tem para nos oferecer.
Poderia ser melhor? Poderia ser pior? Sem dúvida. Mas não sendo nem o melhor possível e nem o pior, qual é o máximo que você pode fazer para realmente viver esse período? Você está sendo o seu melhor? Ou o seu pior? Não são, de certa forma, reflexos das nossas atitudes as situações que nos rodeiam? Como esperar o máximo de algo se não é o máximo aquilo que você faz? E como se lamentar pelos infortúnios se tantas vezes demos o "menos" de nós mesmos?
Seja um período bom ou ruim, passará. E aí fica a pergunta... esse período vai passar por você, ou será você que irá ultrapassá-lo?

XVII

Compaixão

Eu gostaria de hoje aproveitar esse espaço para falar sobre um sentimento de grande relevância em nossas vidas, a compaixão. Muitas vezes consideramos este sentimento menos importante do que realmente é, e ocorre ainda muitas vezes de misturarmos a compaixão com a piedade. Não é dessa compaixão que quero falar.
Se formos buscar o significado dessa palavra, iremos encontrar: "s.f. Sentimento de pesar que nos causam os males alheios; comiseração, piedade, dó". Mas existe também um significado mais profundo, que é quase uma arte. A arte e a virtude de compartilhar o sofrimento do outro. À essa arte, acredito que podemos dar o nome de amor.
Um amor que é maior do que o desejo, maior do que a nossa vontade de nos realizarmos através do outro.
Muitas vezes, quando nos preocupamos com alguém estamos na verdade colocando uma projeção nossa naquela outra pessoa, estamos buscando, através do outro, dar vazões para as nossas próprias e íntimas preocupações. A compaixão não é nada disso. É o dom de compartilhar um sofrimento sentido por outra pessoa mesmo que a gente não concorde e nem compreenda aquele sofrimento. É sentir de uma forma mais elevada nós mesmos em nome do outro. É, por um instante que seja, sentir o outro como se estivéssemos sentindo a nós próprios em toda a nossa totalidade. E falta em nosso mundo muito de compaixão. Muito de amor.
Talvez não tenhamos o poder de trazer mais dessa compaixão pra o mundo, mas temos sim o poder de trazer mais compaixão para as nossas próprias vidas.

XVI

Coragem
Nessa semana eu gostaria de trazer para vocês algo que considero fundamental para a vida. Coragem. Não aquela coragem que faz uma pessoa enfrentar um bandido ou entrar numa briga, que é mais prepotência e arrogância que coragem.
A coragem da qual falo é aquela necessária para que possamos viver a vida, enfrentar as dificuldades, os problemas. Essa coragem existe dentro de todos nós, é uma força, uma confiança maior de que possuímos todas as ferramentas necessárias para ultrapassar e vencer os obstáculos que surgirem em nossa frente. E essa coragem tão fundamental precisa ser alimentada, precisa ser exercitada e fortalecida.
A acomodação a qual muitas vezes nos submetemos, o medo e a insegurança são os principais inimigos dessa coragem. Como seres em constante evolução precisamos manter as engrenagens da nossa vida e de nosso aprendizado em constante movimento, e a coragem é o ingrediente "extra" que vem nos fortalecer quando a nossa vida se depara com um momento de dificuldade e dúvida. É essa coragem que nos proporciona a confiança de que saberemos como agir, que tomaremos a atitude correta, que venceremos a dificuldade ou o problema que surgiu na nossa vida.
Uma maneira de fortalecermos essa coragem é estarmos atentos a quem somos, às atitudes que temos no nosso dia a dia, é prestarmos atenção aos comportamentos que temos e estarmos sempre conscientes, alertas, assumindo as nossas responsabilidades por nossas atitudes e pelas possíveis conseqüências que nosso comportamento trará.
Quando agimos de acordo com a nossa verdade interior de uma forma consciente, a confiança de que estamos agindo de forma correta é natural. E é daí que nasce e se fortalece a nossa coragem. Sejam corajosos, estejam confiantes e mantenham-se alertas sobre as atitudes que tomam a cada instante do dia, e os caminhos se abrirão a frente de sua força e coragem.

XV

Estabilidade & Segurança
Dessa vez escrevo atendendo a um pedido. Pediram-me para falar sobre a estabilidade. Não consigo falar sobre isso sem que na minha cabeça venha imediatamente a palavra segurança. E segurança, a meu ver, não passa de uma ilusão. Assim como a estabilidade. Pois a estabilidade de hoje pode simplesmente não mais existir amanhã.
Somos seres em constante mutação, e idealmente, em constante evolução e aprendizado. Éramos menos sábios um ano atrás do que somos agora, passamos por experiências e situações que nos proporcionaram novos conhecimentos, ao menos novos conhecimentos sobre nós mesmos (ou ao menos, assim deveria ser). E muitas vezes podemos apenas não nos dar conta disso. E isso acontece com muita freqüência, infelizmente.
Muitas vezes a vida passa por nós e não nos damos conta de que deixamos passar um tempo precioso através de nós, como se assumíssemos a função de um mero expectador da nossa própria vida, e esquecemos que não estamos assistindo a um filme, mas que desse filme somos os atores e atrizes principais.
Conforme a vida acontece, se nós nos permitirmos "acontecer" junto com ela, tirando de nossas vidas todas as lições de que somos capazes, vamos aprendendo, evoluindo, mudando. E a estabilidade nesse caso não pode existir com a mudança. E a segurança possível é apenas a segurança que podemos proporcionar a nós mesmos, pois se a nossa segurança depende de outras pessoas ou de situações das quais não temos nem poder e nem controle, estaremos nos apegando apenas a ilusões, e ilusões que passam com o tempo.
Se estivermos conscientes, alertas, vamos perceber as mudanças e saberemos nos adaptar as novas situações que surgirem, sem deixar que fique em nossas bocas o gosto amargo da desilusão ou da amargura.
Se aceitarmos que nem mesmo nós temos o controle total sobre o que nos cerca e se nos permitirmos cada vez mais aprendermos e evoluirmos com as situações que a vida nos trouxer, a única estabilidade que desejaremos será a constância de continuarmos sempre evoluindo, progredindo, mudando, crescendo. Sem âncoras que nos segurem e nos impeçam de crescer.

XIV

Passado

Tem dias em que a gente simplesmente sente saudades. Não necessariamente saudades de pessoas ou de lugares que já não fazem mais parte das nossas vidas.
A maior saudade, a saudade que muitas vezes mais dói é a saudade de quem éramos em determinado momento das nossas vidas e tudo que ignorávamos que ia acontecer a seguir. Saudades de momentos em que a gente simplesmente estava ali, e viveu aquele momento sem saber o que viria, a gente só viveu.
Sorrisos que hoje já não mais emitem nenhum som, o barulho que existiu naquele instante e que agora é silêncio. Saudades de um abraço que hoje já não mais nos abraça, de um calor humano que hoje foi substituído por outro, ou simplesmente pelo frio. Saudades de quem éramos.
Do que poderíamos ter sido e não fomos. E as vezes sentir saudades é bom, as vezes nem tanto. Mas se existem alguns momentos assim na nossa memória, se por um instante imaginarmos que estamos ali novamente, vivendo aquele instante exatamente como aconteceu, faríamos realmente alguma coisa diferente, sendo quem éramos na época? Acredito que dificilmente. Aproveitamos o que na época acreditamos que devíamos aproveitar. Talvez depois disso alguma coisa tenha acontecido, alguém muito especial tenha deixado de existir em nossas vidas. Mas não tínhamos como saber.
Sabemos apenas que tudo isso pode estar vivo em nós, e que dentro de nós poderá viver para sempre. A saudade também pode ser um lembrete de que agora existem pessoas que são especiais para as nossas vidas mesmo que a gente não perceba isso com toda a clareza, e que o hoje pode ser alguma de nossas doces lembranças para o amanhã.
Que a gente tenha a sabedoria de viver o instante presente, e que a gente tenha a força para manter acesa dentro de nós a lembrança e a doçura do que já nos foi tão importante um dia.

XIII

Recentemente estive conversando com algumas pessoas sobre intimidade. A liberdade que tomamos quando já somos (ou nos consideramos) íntimos de alguém.
Você dificilmente chega na casa de pessoas que não conhece e pede para que mudem o canal da televisão, ou em um restaurante se vira para as pessoas que estão na mesa ao lado e sugere que escolham peixe ao invés de um filé porque o peixe é mais saudável. Muitas vezes a intimidade se confunde com o direito de escolha do outro, com o direito de "espaço".
A intimidade é muito boa quando queremos conversar sobre nossas aflições e nossos problemas, e mesmo assim, as vezes a intimidade pode atrapalhar.
Tememos julgamentos, tememos as interpretações que os outros podem fazer a nosso respeito. Respeito.
Acredito também que muitas vezes a intimidade conflita com o respeito. O respeito pela individualidade do outro. Ser íntimo de alguém, conhecer alguém intimamente não deve significar ter o direito de impor ao outro as nossas condições de vida.
É saudável mantermos nossa intimidade "íntima", como o próprio nome diz. A nossa intimidade é nossa. Ao abrí-la ou ao entrar na intimidade de alguém, vale sempre lembrar que a nossa intimidade pertence apenas a nós mesmos. E se alguém permitiu compartilhar com você um pouco dessa intimidade, agradeça, e principalmente, respeite.

XII

Sobre a Fé e a Anti-Fé

Neste espaço eu gostaria de divagar um pouco mais sobre as crenças (e não crenças) que temos. Tenho notado que é crescente o número de vezes em que é gerada uma certa polêmica religiosa sobre alguns filmes ou livros. Temos diversos exemplos disso, seja a repercussão do Código Da Vinci, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, Caim (do Saramago), o novo filme Antichrist (Lars von Trier), entre tantos.
Existem diversas religiões e mais que isso, existem diferentes cultos também.
Tivemos a onda dos punks, skinheads, góticos, etc. Até mesmo o movimento hippie não estava totalmente fora deste contexto. Mesmo a ausência de uma crença, quando enfaticamente defendida, já é por si mesma uma forma de crer.
Em meio as polêmicas existentes, podemos perceber que existem argumentos de defesa para quaisquer dos lados. Não que tenhamos nós o direito de tentar impor a nossa própria crença a outra pessoa, mas por que nos sentimos tão impelidos a defender esta ou aquela religião quando se abre uma polêmica? Qual a necessidade que temos que estamos tentando defender? O que nos faz tomar parte da discussão, ou por que nos sentimos de certa maneira "pessoalmente" atacados? Se somos capazes de respeitar a pessoa que não gosta de carne de porco como nós, ou que não gosta de alface, ou se somos nós que não gostamos de cenoura, por exemplo, e isso não é de forma alguma um problema, por que com religião não conseguimos desenvolver em nós o mesmo respeito?
Já me aconteceu, mais de uma vez, de ser parada na rua na tentativa de ser "convertida". Admiro as pessoas que estão certas e confortáveis com a fé que possuem, mas de forma alguma isso dá a essas pessoas o direito ou a permissão de tentarem impor sua fé para outras pessoas.
Quantas guerras já foram declaradas em nome da religião? Quantos mortos? Em qual religião tal agressão é permitida? A agressão que é feita à liberdade do indivíduo e ao direito de livre arbítrio de cada ser humano toda vez que uma religião é imposta, ou a cada tentativa de coação com a justificativa de se tratar de um ensinamento é o maior princípio possível de arrogância, de determinada pessoa se considerar acima dos demais, independente de suas crenças.
O ladrão que te assalta pode estar motivado pela fome dos filhos que sofrem na casa dele, ou na rua sem um teto onde viver, e ainda assim você estará sendo atacado por ele, independente da razão que o motive.
Qualquer forma de fanatismo é prejudicial, seja para a saúde que temos, seja para a convivência em sociedade. Possuímos mais respostas dentro de nós mesmos do que muitas vezes gostaríamos de supor, portanto, pessoas maravilhosas que são, reflitam com seus próprios corações aonde está o vosso direito de liberdade e aonde se encontra o direito alheio. Não só para a religião, mas para a vida. Respeitem cada vez mais, e sempre mais, as diferenças que existem entre os indivíduos, que é onde se encontram as maiores belezas de nossa humanidade.

XI



Tenho tido a oportunidade de me comunicar com vocês e isso tem sido um grande prazer para mim. Quando temos a chance de ler algum artigo ou um livro, temos a liberdade total de interpretarmos as palavras ali escritas e automaticamente adaptarmos essa interpretação para as nossas experiências de vida. Quando escrevemos, estamos colocando nas palavras muito de nós mesmos, nossos pensamentos, sentimentos e o momento que estamos vivendo. Hoje eu gostaria de colocar um pouco também da minha Fé.
E quando eu digo Fé não digo religião, doutrina ou filosofia, nem me refiro a interpretação individual que cada um tem. A Fé pode ser em um Deus, no Universo, no Futuro, no Destino, mas deve também existir a Fé em nós mesmos.
A Fé de que podemos ser e realizar algo realmente importante e significativo tanto para as pessoas que nos cercam quanto para nós mesmos. Sem Fé nos vemos estagnados, paralisados e sem a confiança de que amanhã será um dia melhor e que virá com novas possibilidades e surpresas. Nós não somos donos do amanhã, somos donos do nosso presente e da Fé que possuímos, e é o bastante para que possamos trilhar o mais belo dos caminhos.

X

Diferenças

Eu tenho escrito aqui nesse espaço alguns pensamentos e reflexões minhas, e sei que cada um que lê esse espaço tem a sua própria interpretação do que aqui vai escrito. A vida que cada um teve até esse momento, a história de cada um é o que trás para cada olhar um ângulo diferente, uma interpretação única, mesmo que com alguns pontos em comum. Estive nos últimos dias atormentada por um pensamento.
Por que existem pessoas que se calam? Por que muitas vezes quando sentimos a necessidade de um ombro, de um consolo, não obtemos esse apoio de onde gostaríamos? Seria tão mais fácil ouvir, mesmo que uma negação, do que nos vermos obrigados a engolir o silêncio.
Algumas pessoas simplesmente não conseguem. Não percebem que o simples fato de dizer algo do tipo "Sinto muito", ou então "Eu lamento, mas não sou como você gostaria" ou ainda "Olhe, não vou me desculpar por não ver as coisas como você", qualquer coisa do tipo pode trazer tamanho alívio para o coração que se vê aflito. Muitas pessoas podem não saber o que dizer em um momento de adversidade, ou em uma situação de luto. Por que não dizer simplesmente "Não sei o que dizer, estou sem palavras"? Não digo isso apenas para situações assim tão tristes, pode ser qualquer situação, muitas vezes apenas abrir o coração e deixar sair a verdade pode aliviar muito mais do que o silêncio que prolonga a ansiedade, a insegurança ou o medo.
Todos nós temos nossos fantasmas, nossa intimidade muitas vezes assombrada e temerosa. Abrir mão das nossas defesas pode muitas vezes ser o suficiente para levar a paz e a tranqüilidade daqueles que nutrem alguma expectativa ou sentimentos sobre nós.
Não entendo porque fazemos tanta questão de nos resguardamos das pessoas que são pessoas como a gente. De onde vem esse nosso medo?
Se for medo de não sermos aceitos, será que não é muito mais provável que não sejamos aceitos por justamente escondermos ou camuflarmos a nossa essência? E se formos aceitos, não é uma imagem fictícia que está sendo aceita ao invés de nós mesmos? Qual a vantagem de lutarmos tanto para preservar e não demonstrar o nosso íntimo se é o nosso íntimo o que há de mais belo e verdadeiro em nós?
Se alguém espera algo de você, não há maior alívio que você possa dar do que expor a si mesmo seja para acatar ou para negar essa expectativa. A verdade, tanto para nós mesmos quanto para os outros, é o alívio que só pode existir através da compreensão. E a verdadeira compreensão só é possível de ser atingida quando a verdade é conhecida. Sejamos capazes de sermos quem somos, e assim deixarmos para trás as armaduras que só trazem peso às nossas costas.

IX

Ser Especial

Dessa vez tenho uma confissão a fazer. Eu acreditava que eu era de alguma forma, uma pessoa diferente, especial. Acreditava que o comum era muito pouco, e queria mais, mais de tudo, mais da vida. Acreditava que se contentar com as coisas era um desperdício de toda a capacidade existente em mim. Mas percebi algumas coisas nos últimos tempos. Tenho sim um valor além do valor comum, e esse é o valor que atribuo a mim mesma.
Para mim, não existe nada mais especial ou que valha mais a pena do que eu mesma. Com essa percepção, as pessoas tornam-se ainda mais importantes, cada uma para si mesma. Não existe ninguém prestando tanta atenção em nós como as vezes gostaríamos que estivessem. E isso é um alívio, pois você pode, por si mesmo, cometer todos os erros e acertos que julgar importantes para você.
O comum não existe, nem o tradicional, o normal. O que existe é o correto para cada ser humano, para cada indivíduo, e cada um tem todo o direito de estar e de viver de acordo com a sua própria verdade. Quando a gente percebe que é como as outras pessoas, nem mais, nem menos, nem diferentes e nem iguais, mas estamos todos com as mesmas incertezas, medos, dúvidas, amores, necessidades, carências, coragens e fragilidades, abrimos uma porta enorme para aceitarmos tanto nós mesmos quanto os outros em nossas vidas.
Aceitarmos os erros alheios sabendo que muitas vezes erramos perante os olhos que nos vêem também, mesmo que para nós, não tenhamos cometido erro algum.
São essas pequenas coisas que tornam a vida um bem tão precioso, tão repleta de possibilidades e beleza. Somos todos iguais, e nessa igualdade, tão magnificamente distintos.

VIII

Solidão

As vezes lamentamos alguns espaços vazios em nossas vidas, nos sentimos sós. Podemos ter pessoas ao nosso lado e ainda assim nos sentirmos sós. Na realidade, somos seres humanos solitários, assim nascemos e assim morreremos. Aceitar isso como a realidade da vida é fundamental para que possamos usufruir da melhor maneira os momentos em que duas ou mais pessoas se encontram na mesma sintonia, dividindo instantes e pedaços do caminho de nossas vidas. Acreditar que é possível viver a vida de outra pessoa ou que uma outra pessoa pode viver a nossa vida, sentir nossos sentimentos, pensar nossos pensamentos ou conhecer o mundo que existe dentro de nós é ilusão, não faz parte de nossa natureza, pode no máximo, fazer parte de nossas expectativas – o que não quer dizer que deixem de ser ilusões por isso. As pessoas que cruzam nossa vida sempre possuem algo que nos podem ensinar, nos possibilitar amadurecer ou simplesmente abrir um espaço para que possamos, com mais clareza, percebermos melhor a nós mesmos. Muita gente tem medo da solidão, e não percebe que não há maior possibilidade de nos compreendermos do que estando sós com nós mesmos. Ninguém precisa ser uma ilha por isso ou um ermitão. A nossa vida pode possuir inúmeros encontros e desencontros, muitos amigos com quem compartilhar nossas alegrias e tristezas, muitos braços e abraços que nos apóiem nos instantes mais complicados, mas ainda assim, a vida de cada um, a jornada de cada um é uma jornada solitária, onde nos cabe encontrar as nossas respostas, realizar as nossas descobertas, encontrar nossa satisfação e conhecimento. Quanto mais cedo aceitamos essa realidade, mais cedo tomamos para nós a responsabilidade de nossas vidas, de nossos atos e nosso futuro.

VII

Mudanças

Quantas vezes a gente olha para a nossa própria vida e reconhece tantas coisas que são verdadeiras razões para nos sentirmos gratos, felizes... Quantas vezes percebemos que algumas atitudes nossas podem nos fazer ser pessoas melhores, mais merecedoras de tudo aquilo que temos? E quantas vezes percebemos que uma mudança em nós pode transformar as coisas que não vão bem em possibilidades reais de melhora em nossas vidas?
Pois somos como as sementes, e muitas vezes arrebentar a casca nem sempre é fácil, é como deixar a semente morrer para nascer a nova planta, capaz de crescer, de florescer, de evoluir. Mas assim como pode ser um processo doloroso, é também um processo necessário se esperamos atingir alturas maiores. Muitas vezes é através da dor e do sofrimento que aprenderemos a dar valor aos períodos de paz e felicidade, assim como também poderemos constatar que somos muitas vezes mais fortes e mais capazes do que antes imaginávamos. Somos, cada um a sua maneira, uma estrela, e para onde vamos dirigir o brilho que possuímos é uma escolha individual e necessária. Estando todos nós em conformidade com a nossa própria natureza, nossa verdade e nosso potencial de realização e crescimento, estaremos tornando o mundo onde vivemos em uma constelação harmoniosa e deslumbrante. Assim, a nossa missão é a de mantermos acesa a nossa luz, não para que a estrela ao nosso lado perca ou diminua o seu brilho, mas para que todo o céu se ilumine em uma homenagem ao Universo e a cada um de nós.