Saímos de nossas casas, saímos de nossas mentes para encontrar o mundo. Mas não conseguimos sair de nós mesmos, não conseguimos nos ver da forma com que as outras pessoas nos vêem nem tão pouco nos vermos em toda a nossa complexidade. Nos habituamos em nossa zona de conforto e aceitamos as peças e armadilhas que nosso próprio cérebro nos impõe para não percebermos o quanto apesar de nos afastarmos de nossa zona de conforto nos mantemos presos a ela. Damos voltas e mais voltas na expectativa e na esperança de nos tornamos serem maiores, mais evoluídos e mais sábios quando somos vítimas de nossas próprias piadas. Saímos de uma ilusão para mergulharmos em outra, e são camadas dentro de camadas de novas expectativas e de novas ilusões. Grandes fragilidades e medos, necessidades que não queremos reconhecer em nós mesmos. E em nossas mentes mergulhamos e nos afundamos cada vez mais e mais.
Abandono facilidades para sair a procura de novas facilidades, regadas com a ilusão de serem mais difíceis ou mais complicadas. Enxergamos apenas aquilo que queremos enxergar, não estamos preparados para enxergar tudo sobre coisa alguma, muito menos quando se trata de nós mesmos.
Não somos o centro do universo, quando muito, permitimo-nos ser o centro de nós mesmos. E não há qualquer conforto, qualquer descanso, qualquer refúgio para que nos salvemos do universo infinito que existe dentro de nós. Alguns lutam porque se querem conhecer, se querem descobrir e esperam por uma transformação e um desabrochar. E como precisamos acreditar numa transformação! E como precisamos acreditar num desabrochar! Porque é difícil encararmos as realidades da vida, é difícil enxergarmos a nossa própria pequenez e inutilidade. Seja através da arte, da música ou da dança, seja através do amor, da busca pelo sucesso ou de qualquer outra procura, arrumamos desculpas para nós mesmos, arrumamos saídas falsas e ilusões para percebermos aquilo que queremos perceber.
O amor, seja na forma mais plena, absoluta, incondicional de amor, nos possibilita vermos mais do que poderíamos ver sem que ele existisse, mas não nos permite ver além dele próprio, e podemos nos tornar a mais pura e plena expressão de amor, o que não significa que nos tornamos conhecedores dele ou sábios de qualquer maneira.
E vejo-me crescer para ver-me tornar pequena. E vejo-me liberta para tornar-me dependente, vejo-me transformar para retornar ao ponto de partida, e fecho-me num eterno círculo sem volta e sem saída, num eterno buscar onde se desenha meu caminho e onde não há escapatória ou destino final, é ir, e ir, e ir, e ir até que não haja mais vida para possibilitar qualquer caminhada. E no caminhar cada ser humano é capaz de ter as mais nobres ou parvas atitudes, ser o mais egoísta ou altruísta, ser o mais capaz ou o maior dos infelizes, fazemos nossas escolhas que vão definir a pessoa que somos mas não altera o nosso ponto de chegada ou de partida.
Não faz diferença pelas estradas que caminhemos ou pelos sonhos que deixemos pelo caminho, sempre vamos da forma que achamos melhor, da forma que desejamos ir, independente se usamos as armadilhas e artimanhas de nosso cérebro para justificar nossos atos e escolhas como certas ou erradas.
E assim, numa consciência entorpecida e desacordada, vagueamos feito zumbis de nós mesmos, preenchendo-nos de ilusões e desejos, de sentimentos e crenças.
Lembro-me da criança que eu fui, de mim adolescente, depois adulta. Sou outra pessoa e sou ainda e serei sempre o reflexo daquilo que foram meus pais, meus amigos, minha história. Posso virar a mesa, posso mudar a história, e fazer curvas em sentido contrário ou de noventa graus, continuarei a ser eu mesma, continuarei a buscar as mesmas coisas, a cometer as atitudes que me parecerem mais acertadas, a agir em nome de meus conceitos e de meus valores, e não importa que mudem as personagens ao meu redor, não importa que mude meu dia a dia ou minha rotina, não importa que meus olhos estejam abertos ou fechados nem importa a consciência ou falta dela que eu tenha na vida, ainda permanecerei vendo apenas aquilo que eu quiser, ainda permanecerei sendo aquilo que eu quiser, sofrendo das mesmas angústias, dos mesmos sonhos e caprichos, das mesmas necessidades e ambições. Pois sou eu, humana e fraca, e tomada pelos instintos mais básicos e primitivos daquilo que considero como eu mesma, mesmo que eu não saiba ou reconheça quem sou eu.
Porquê: Eu sou uma alma livre presa em um corpo, mas não limitada por ele.
30 de set. de 2010
...
And then, I ask myself “Can I do it?” and I get the answer “Yes, will be hard, I know… but I want to do it?” and I get the answer “No, I don’t want to do it”… I ask me again “Do I have to do it?” And I know “Yes, I have to. I have to …”
Almas Inquietas
Eu vi os olhares pelas ruas, vi a inquietação nos gestos. Vi aquele que regressava à casa, para a família, esposa e os filhos e se perguntava se a vida era só aquilo, se questionava como preencher o imenso vazio que cobria seu peito. Eu vi a menina de mãos dadas com o namorado e o seu olhar de cobiça para o rapaz bem apanhado que entrava distraído. Eu vi a velha senhora que folheava um livro qualquer se perder em pensamentos de como era absurdo o comportamento do filho, que só fazia escolhas erradas na vida. Vi os olhos do velho recuarem no passado para relembrar o amor ausente, que ele não soube manter. Eu vi as almas inquietas, insatisfeitas, a procura de consolo em qualquer lugar que não neles mesmos. Eu vi a mulher batalhadora sem perguntas no olhar, apenas indo para mais um dia de trabalho buscar o sustento dos filhos ainda pequenos, ali não havia tempo para pensar, mas haverá. Eu vi as crianças brincando querendo os brinquedos umas das outras. Eu vi o tempo passando. Vi meus pés cheios de bolhas, senti o peso das minhas costas e me dei conta dos meus cabelos brancos. Eu vi uma menina se esconder atrás de grossos óculos e do cabelo despenteado, puxado para a frente do rosto, as roupas largas e sóbrias, o sorriso medroso e as pernas inseguras, esperando pelo milagre ali, sentado ao lado dela sem que ela percebesse. Eu vi o olhar carinhoso do pedinte de esmolas ao olhar para o cão ao seu lado. Eu vi o tempo voar, eu vi minhas escolhas e chances me passarem pelas mãos sem tentar sequer tocá-las. Eu vi a noite cair, o mar se revoltar, ouvi os sons das ondas batendo nas rochas. Eu vi o morto descer em seu caixão para dentro da terra, já não havia inquietação em seu olhar. Vi os amigos irem aos copos e esquecerem-se da vida, por instantes, apenas estando ali, até a hora de cada um seguir seu caminho, todos eles sem vontade de ir. Vi nascer e morrer o amor dos amantes. Vi o tempo passar. Soube da notícia antes de recebê-la, conheci a história sem ver o livro, escolhi não ler. Eu vi os olhares pelas ruas, vi as almas inquietas. Reconhecemo-nos, por instantes, olhamo-nos nos olhos, e seguimos cada um seu próprio caminho.
Pois é.
Primeiro, falemos sobre os nossos desejos, vontades. Que nada são além de ilusões, na maioria das vezes. Realmente, são. Porque somos pessoas em constante movimento interior, quer aceitemos ou não. E o nosso desejo de hoje pode não ser o nosso desejo de amanhã, e jamais teremos controle algum sobre isso, esse controle é também uma forma de ilusão. Não somos “donos” do nosso futuro, por uma razão muito simples. No futuro, já não seremos nós, seremos um outro “nós”, mais envelhecido, amadurecido, modificado. Isso faz com que o único e real poder que tenhamos seja apenas sobre o momento presente. Nosso querer de agora, nosso evoluir nesse instante. Justamente por essa razão, longos planejamentos podem ser extremamente benéficos, porém podem acarretar em desilusões grandiosas. É por isso que tantas vezes acontece de desejarmos alguma coisa e quando depois de algum tempo, a conquistamos, é como se aquilo perdesse o valor que antes atribuíamos aquela conquista. Não é que tenha perdido qualquer valor ou significado, fomos nós que ultrapassamos o momento onde aquilo teve a importância que teve. Então não devemos querer nem lutar por mais nada, vocês podem perguntar. Não, não se trata disso. Antes é reconhecermos em nós que nossos sonhos são temporais, nossas vontades são passageiras, que estamos em constante mudança e não há mal nisso. Mas percebermos essa temporalidade, essa alteração constante que acontece dentro de nós mesmos pode ser um problema, sim. Porque conceitos cairão por terra por essa percepção. Muitos deles. E se seguirá a isso uma transformação de nosso ser. Um amadurecimento de nossa consciência, uma outra visão do mundo. Podemos resumir tudo isso de uma outra maneira, talvez mais simples. Imaginem que hoje percebemos as coisas de determinada maneira. Se estamos tristes ou desesperançados, é porque a nossa percepção da vida que estamos vivendo enxerga as dificuldades, obstáculos, problemas ou simplesmente vê que as coisas permanecem sempre as mesmas, que não há nada a que se buscar. Mas, se no dia seguinte, a nossa percepção da vida estiver vendo a beleza das coisas, as possibilidades de que tudo pode acontecer e que somos capazes de obter as maiores conquistas que possamos desejar, nos sentiremos felizes e quase como donos do mundo. Ambas as sensações e percepções são apenas ilusões. São instantes temporais que estaremos vivenciando. Não há firmeza nem certeza de que amanhã estaremos nos sentindo da mesma maneira. Porque não estaremos baseando nossas percepções em nós, mas naquilo que estamos enxergando do mundo naquele momento. E isso muda com uma freqüência assustadora. Um exemplo mais simples... Imagine que você está num dia “cinzento”, se sentindo solitário e não está vendo nenhuma perspectiva de melhora nesse estado. Então alguém que te seja muito querido liga, manda uma mensagem ou aparece simplesmente para pegar em sua mão e irem passear. Imagine como o dia então se transforma, e como você se percebe de uma hora para outra, sorrindo e feliz. Ilusões. Não foi a vida que mudou, foi apenas a perspectiva que você estava tendo que foi alterada. Nenhuma magia, nenhum milagre, nada disso. Apenas sua forma de perceber as coisas. Você continua solitário, continua exatamente como estava, porque essa pessoa estará ali apenas por alguns momentos, cedo ou tarde você vai ter novamente a mesma perspectiva que estava tendo antes, porque ela está em você. E por inúmeras vezes nos percebemos nesse vai e vem de emoções, hora felizes, hora desesperados. Como fugir disso?
É muito menos complicado do que parece, não que seja fácil, convenhamos. Mas se você estiver disposto a enxergar como se “estivesse de fora” esse vai e vem emocional, como apenas as perspectivas que são, você já deu o primeiro passo para expandir sua consciência e libertar-se desse ciclo vicioso. Quando você estiver sozinho novamente e essa pessoa especial aparecer, você saberá que serão momentos felizes, que você irá estar feliz e tudo o mais, mas que serão instantes e que você não pode depender desses instantes para ser feliz eternamente. Aceitar que teremos a sensações que quisermos ter, se aprendermos a dominar a forma com que enxergamos a vida. Nada complicado, nada “de outro mundo”, tudo muito simples e não por isso ruim.
Muitas pessoas conseguem viver a vida inteira sem se darem conta disso, conseguem colocar sem sequer terem consciência, as suas alegrias e tristezas nas mãos daqueles que estão a sua volta, e conscientes ou não, essas pessoas tem o direito de fazerem isso. Nós é que não temos o direito de querer impor aos outros as nossas formas de viver. É preciso que haja espaço e liberdade para que as pessoas se tornem aquilo que elas quiserem se tornar.
Muitos já disserem que o grande problema da humanidade são os conceitos de nossa sociedade que estão enraizados dentro de cada um de nós. E livrar-nos dessas raízes não é nada simples, nem fácil. São conceitos, comportamentos, crenças e padrões enterrados fundo demais dentro da gente. Mas é possível sim quebrar esses padrões e assumirmos uma nova perspectiva da vida e do mundo. Porém é necessária coragem. Talvez, e cadê vez mais, com mais e mais pessoas se abrindo para um novo comportamento e visão das coisas, seja necessário se ter menos coragem, pois já terão nos aberto o caminho. Outra coisa que nos habituamos a fazer... a seguir outros. Pois é difícil abrir um novo caminho quando nos ensinaram a ser seguidores.
E se você optar por começar a refletir sobre essas coisas, se você verdadeiramente optar por expandir sua consciência, acontecerá de muitas vezes você sentir medo. Temer se perder pelo caminho que é desconhecido, pelo caminho que nem sequer existe, caminho que você estará abrindo conforme anda por ele. E não faz mal sentir medo, desde que o medo não paralise seus movimentos. Não há problema algum em sentir-se perdido, inseguro. Desde que esses sentimentos não impeçam sua jornada. Sim, existe um mundo para ser descoberto, existe uma expansão infinita de nossas consciências para ser atingida, mas vai um alerta... Essa escolha, esse caminho não é para todos. E mesmo se for, há que se respeitar o instante de cada um.
É muito menos complicado do que parece, não que seja fácil, convenhamos. Mas se você estiver disposto a enxergar como se “estivesse de fora” esse vai e vem emocional, como apenas as perspectivas que são, você já deu o primeiro passo para expandir sua consciência e libertar-se desse ciclo vicioso. Quando você estiver sozinho novamente e essa pessoa especial aparecer, você saberá que serão momentos felizes, que você irá estar feliz e tudo o mais, mas que serão instantes e que você não pode depender desses instantes para ser feliz eternamente. Aceitar que teremos a sensações que quisermos ter, se aprendermos a dominar a forma com que enxergamos a vida. Nada complicado, nada “de outro mundo”, tudo muito simples e não por isso ruim.
Muitas pessoas conseguem viver a vida inteira sem se darem conta disso, conseguem colocar sem sequer terem consciência, as suas alegrias e tristezas nas mãos daqueles que estão a sua volta, e conscientes ou não, essas pessoas tem o direito de fazerem isso. Nós é que não temos o direito de querer impor aos outros as nossas formas de viver. É preciso que haja espaço e liberdade para que as pessoas se tornem aquilo que elas quiserem se tornar.
Muitos já disserem que o grande problema da humanidade são os conceitos de nossa sociedade que estão enraizados dentro de cada um de nós. E livrar-nos dessas raízes não é nada simples, nem fácil. São conceitos, comportamentos, crenças e padrões enterrados fundo demais dentro da gente. Mas é possível sim quebrar esses padrões e assumirmos uma nova perspectiva da vida e do mundo. Porém é necessária coragem. Talvez, e cadê vez mais, com mais e mais pessoas se abrindo para um novo comportamento e visão das coisas, seja necessário se ter menos coragem, pois já terão nos aberto o caminho. Outra coisa que nos habituamos a fazer... a seguir outros. Pois é difícil abrir um novo caminho quando nos ensinaram a ser seguidores.
E se você optar por começar a refletir sobre essas coisas, se você verdadeiramente optar por expandir sua consciência, acontecerá de muitas vezes você sentir medo. Temer se perder pelo caminho que é desconhecido, pelo caminho que nem sequer existe, caminho que você estará abrindo conforme anda por ele. E não faz mal sentir medo, desde que o medo não paralise seus movimentos. Não há problema algum em sentir-se perdido, inseguro. Desde que esses sentimentos não impeçam sua jornada. Sim, existe um mundo para ser descoberto, existe uma expansão infinita de nossas consciências para ser atingida, mas vai um alerta... Essa escolha, esse caminho não é para todos. E mesmo se for, há que se respeitar o instante de cada um.
Bom Dia
Queria dizer a vocês bom dia, porque acordei agora. E ao abrir meus olhos, me surpreendi ao ver quantas pessoas dormiam ainda.
Mas mesmo assim, eu queria desejar a todos um bom dia. Porque acordei já tarde, não importa quantos de vocês ainda dormem.
Pode ser que em seu sono, os sonhos que sonham possam ser mais interessantes e doces que a realidade que vêem aqui fora, então sonhem se for assim.
Talvez também fosse mais fácil se eu pudesse novamente fechar meus olhos e dormir novamente, só que a claridade do dia já não mais me permite.
Entendo como pode ser mais tranqüila uma noite de sonhos do que acordar para enfrentar o frio ou o calor que pode fazer aqui fora.
Entendo como pode ser mais confortável contar com a proteção de Deuses e de Anjos a velar por vosso sono, já onde estou não há quem olhe por mim.
E essa é a grande beleza de se estar acordado, pois quem pode olhar por mim sou apenas eu.
E tenho cá comigo alguns sons que trazem um conforto que em vosso sono jamais terão
Que é o canto dos pássaros a saudar o dia, as águas dos rios e mares que em fúria saúdam a vida
E na correnteza nos convidam a todos à molhar os pés
Mas mesmo assim, eu queria desejar a todos um bom dia. Porque acordei já tarde, não importa quantos de vocês ainda dormem.
Pode ser que em seu sono, os sonhos que sonham possam ser mais interessantes e doces que a realidade que vêem aqui fora, então sonhem se for assim.
Talvez também fosse mais fácil se eu pudesse novamente fechar meus olhos e dormir novamente, só que a claridade do dia já não mais me permite.
Entendo como pode ser mais tranqüila uma noite de sonhos do que acordar para enfrentar o frio ou o calor que pode fazer aqui fora.
Entendo como pode ser mais confortável contar com a proteção de Deuses e de Anjos a velar por vosso sono, já onde estou não há quem olhe por mim.
E essa é a grande beleza de se estar acordado, pois quem pode olhar por mim sou apenas eu.
E tenho cá comigo alguns sons que trazem um conforto que em vosso sono jamais terão
Que é o canto dos pássaros a saudar o dia, as águas dos rios e mares que em fúria saúdam a vida
E na correnteza nos convidam a todos à molhar os pés
Magia
A magia não é aquilo que gostaríamos que fosse. A magia não consiste em poções mágicas elaboradas por um mago misterioso e de barbas brancas que ao tomar te fará ser qualquer pessoa, animal ou coisa que você deseje. A magia existe, e por vezes nos atinge quando menos atentos à ela estamos. A magia ocorre quando nos conectamos apenas num instante, e não existe qualquer lembrança passada, qualquer plano ou expectativa para o futuro, ao mesmo tempo em que se funde em nós todo o passado e história, todo o futuro e escolhas. A magia ocorre quando nos inteiramos absolutamente de quem somos, aonde estamos, o que sentimos. Tudo naquele exato instante. E naquele instante mágico, tudo sabemos, conhecemos, podemos, porque somos senhores absolutos de nós mesmos. Se tomamos consciência desse momento quando ele nos chega, podemos perceber que as formas a nossa volta ganham maior nitidez, que ouvimos melhor, vemos melhor, cheiramos melhor. Nossos sentidos ficam despertos, alertas, e são comandados por nós. Expandimos numa velocidade incalculável nossa consciência e sentidos. Tornamo-nos senhores absolutos de toda a verdade que em nós habita. Há aqueles que recorrem a rituais para isso, há aqueles que fazem uso da meditação, de yoga, de orações ou até de drogas. Mas a magia vem de dentro. Não está no mundo externo, não está nas palavras ou nos olhos de quem quer que seja. A magia está em nós. E não está em nosso passado ou em nosso futuro. Não adianta olhar “lá fora” para encontrá-la. Ao contrário. Há que se olhar para dentro. E apenas esse olhar para dentro, já é o início de toda a mágica.
Amor e Necessidade
Existe uma grande diferença entre amar e precisar de alguém.
Quando se precisa de alguém, isso não é amor por uma pessoa - é amor por nós mesmos, é quando queremos satisfazer necessidades nossas, é nosso egoísmo falando por nós.
Já quando se ama, é outra coisa. Uma coisa muito diferente. Não existe amor sem liberdade, não existe amor verdadeiro em que a felicidade do outro não seja a prioridade. Isso sim é amor.
É querer ver o outro ser feliz, seja da forma que for, seja como tiver que ser, perto ou longe, sendo recíproco o sentimento ou não. É doar-se, é estar disponível, é ser aquilo que o outro precisar, sem posse, sem dor, sem medo.
Para amar assim, é preciso crescer. É preciso não ter medo, é preciso não esperar nada em troca, é preciso não precisar.
É querer estar com a pessoa e aceitar quando não é isso que a pessoa quer, e sem nenhuma dor, sem nenhum ressentimento, mas com um desejo imenso de que exista abundância e felicidade para seu amor, mesmo em caminhos separados e individuais.
É querer ver o outro sorrir, mesmo que você não esteja lá para ver esse sorriso. É querer a vida leve, plena, absoluta e do jeito que a pessoa escolher viver, amor é respeito.
É colocar-se como uma presença amiga, reconfortante, aconchegante, para quando e como o outro quiser. E amor assim é raro, mas existe.
Amor assim é liberdade, e essa liberdade só existe num amor sincero.
Amor sincero só existe quando existe também amizade.
Para isso, a gente aprende que é muito mais do que as nossas carências e necessidades, que somos muito mais que nossas angústias, dúvidas, medos e carências.
Amor não se pede. Não se obriga. Não se impõe. Amor não se negocia. Amor se sente... ou não.
Quando se precisa de alguém, isso não é amor por uma pessoa - é amor por nós mesmos, é quando queremos satisfazer necessidades nossas, é nosso egoísmo falando por nós.
Já quando se ama, é outra coisa. Uma coisa muito diferente. Não existe amor sem liberdade, não existe amor verdadeiro em que a felicidade do outro não seja a prioridade. Isso sim é amor.
É querer ver o outro ser feliz, seja da forma que for, seja como tiver que ser, perto ou longe, sendo recíproco o sentimento ou não. É doar-se, é estar disponível, é ser aquilo que o outro precisar, sem posse, sem dor, sem medo.
Para amar assim, é preciso crescer. É preciso não ter medo, é preciso não esperar nada em troca, é preciso não precisar.
É querer estar com a pessoa e aceitar quando não é isso que a pessoa quer, e sem nenhuma dor, sem nenhum ressentimento, mas com um desejo imenso de que exista abundância e felicidade para seu amor, mesmo em caminhos separados e individuais.
É querer ver o outro sorrir, mesmo que você não esteja lá para ver esse sorriso. É querer a vida leve, plena, absoluta e do jeito que a pessoa escolher viver, amor é respeito.
É colocar-se como uma presença amiga, reconfortante, aconchegante, para quando e como o outro quiser. E amor assim é raro, mas existe.
Amor assim é liberdade, e essa liberdade só existe num amor sincero.
Amor sincero só existe quando existe também amizade.
Para isso, a gente aprende que é muito mais do que as nossas carências e necessidades, que somos muito mais que nossas angústias, dúvidas, medos e carências.
Amor não se pede. Não se obriga. Não se impõe. Amor não se negocia. Amor se sente... ou não.
08/10
Quando foi que parou de chover?
Quando foi que o sol apareceu?
Quando foi que as coisas tornaram-se tão leves, tão doces?
... E a pobre menina não viu. Não percebeu o dia lindo que fazia lá fora, não percebeu o cantar dos passarinhos em sua janela ao amanhecer. Porque a menina havia acostumado-se com aquele mundo, com a situação, fosse boa ou má, havia aprendido que devia conformar-se e aprender a aceitar fracassos.
Quando foi que tantas flores nasceram no jardim a perfumar todo o ar a volta?
Pobre menininha, que tanto demorou a ver.
Sorte e feliz menininha, que pelo menos, ainda que tarde, começou a enxergar.
E agora, manhã após manhã, abre a janela para abraçar o mundo com um sorriso, porque o mundo tornou-se leve, sem peso nenhum.
Quando foi que o sol apareceu?
Quando foi que as coisas tornaram-se tão leves, tão doces?
... E a pobre menina não viu. Não percebeu o dia lindo que fazia lá fora, não percebeu o cantar dos passarinhos em sua janela ao amanhecer. Porque a menina havia acostumado-se com aquele mundo, com a situação, fosse boa ou má, havia aprendido que devia conformar-se e aprender a aceitar fracassos.
Quando foi que tantas flores nasceram no jardim a perfumar todo o ar a volta?
Pobre menininha, que tanto demorou a ver.
Sorte e feliz menininha, que pelo menos, ainda que tarde, começou a enxergar.
E agora, manhã após manhã, abre a janela para abraçar o mundo com um sorriso, porque o mundo tornou-se leve, sem peso nenhum.
Freedom
It is very easy to talk about what you want. What we want, what is expected. But there is greater freedom in not wanting. In not wait. In not need. Everybody wants something, wait for something, seek or search for something. When you find in yourself the certainty that things, whether they can be better or not, are fine as they are, you become free. Becomes owner of your own life, and learn how to accept, to simply be.
Everything becomes a gift, or simply a problem that sooner or later will pass. You are not the time you are living. The moment will pass - you don't. You can change, learn, hit, miss.
You can laugh or cry. Another day will come, and will be another day.
More than the situation you live, you're the sum of the choices you make.
If you choose to just be instead of trying to be a necessity, a desire, fear or uncertainty, you're free.
And you became you, and not what you live.
Everything becomes a gift, or simply a problem that sooner or later will pass. You are not the time you are living. The moment will pass - you don't. You can change, learn, hit, miss.
You can laugh or cry. Another day will come, and will be another day.
More than the situation you live, you're the sum of the choices you make.
If you choose to just be instead of trying to be a necessity, a desire, fear or uncertainty, you're free.
And you became you, and not what you live.
We can't have everything
I admire people who can have an ordinary life, surrounded by rules and good behavior. I admire people who do not bring unrest in his soul. I admire those who do not challenge, does not transpose their limits and not try to be more than they are. Maybe life is not try to be more or better than we are, maybe life is accepting of our limitations and be lots more humble. We cannot have all. We are not infallible, invincible. I admire those who simply accept this. I admire those who recognize their weaknesses and accept them without being compelled to overcome them. I admire people. All of them. In his acceptance and concerns in their defeats and defections. I wanted to be like them. Did not want to feel the need to overcome obstacles and be more than I am. I admire people who find peace in the routine, people who don't need to create challenges.
But I don’t believe this is for everyone. Some people, like me, feel the need to be more, better, are bound to certain behaviors and attitudes that are not always understandable. It is easier to accept the rules established. Accept what is done than to create their own rules, establish its own principles. There is a cost, a price to be paid for it, I don’t realize the full benefit yet. But principles are principles, not choices. They are what they are, and we recognize our own principles is only one path to follow. So I close my eyes, breathe deep, I try to fill me with courage and confidence in myself and in my ability, and give a step forward. What comes next, we'll see.
But I don’t believe this is for everyone. Some people, like me, feel the need to be more, better, are bound to certain behaviors and attitudes that are not always understandable. It is easier to accept the rules established. Accept what is done than to create their own rules, establish its own principles. There is a cost, a price to be paid for it, I don’t realize the full benefit yet. But principles are principles, not choices. They are what they are, and we recognize our own principles is only one path to follow. So I close my eyes, breathe deep, I try to fill me with courage and confidence in myself and in my ability, and give a step forward. What comes next, we'll see.
Calar
Vai, entre rostos e entre palavras não ditas e desassossegos procurar pela passividade. Passividade que não há, pois não há nenhuma no seu coração que se aflige, que busca, que não encontra e que não sabe o que procura. Vai, entre sorrisos e prantos, preencher seus dias, sua vida. Na caixinha de memórias dentro da mente, peças soltas, perdidas, esquecidas. Momentos que não voltam, a procura por uma calma que não vem. E como poderia? Não há calma na busca, para isso deve-se parar de buscar. Mas a busca é em si um vício, uma adrenalina que não passa. Pude ver o futuro em um relance, pude enxergar as pessoas daqui a 10, 20 anos. E foi uma visão tão triste... Uma procura que não tem paz, um círculo que não se rompe, o cão que corre atrás da própria cauda sem se dar conta que ela lhe pertence. Pode ser que as coisas mudem, mas o mais provável é que não. E assim são as coisas, assim é a vida. Um capítulo que precisa ser encerrado, para que se possa novamente começar a viver. As coisas deixam de ter porquê, deixam de valer a pena. Alfinetes enfiados fundo demais, sangue já seco. É preciso água para limpar, é preciso ar para se respirar. Nem tudo o que se procura se encontra, nem tudo o que se quer se alcança, nem tudo tem lógica ou sentido. É apenas uma vida, a escolha vai de cada um pelo que buscar. Em meu mundo, já não tenho mais pelo que procurar. Vi os resultados, conheço os esforços, e tristemente, reconheço que pode simplesmente, não valer a pena. Enganei-me. Do alto da minha vontade de tudo saber, enganei-me. Quando acreditamos poder demais, sermos fortes demais, o tombo é sempre maior. Joelhos ralados, feridas abertas, é tempo de cicatrizar, de calar, de não correr atrás de galinhas, de deixar a vida acontecer. Em meu mundo, meu pequeno universo particular, me contenho, paro, olho, escuto. Sim, é tempo de calar, é tempo de deixar a vida ser o que tiver que ser. E como sempre, ou como nunca, mais uma vez ainda é possível dizer... tudo bem.
Teatro
Uma mistura de pato e o sabor doce e amargo do experimentar. Cansada de Nietzsche, Blake e Tolstoi. Livros demais, filosofias e reflexões demais. A vontade de andar de pés descalços e dançar na chuva, o grito que ficou preso na garganta, as coisas não ditas... Ah, as coisas não ditas...
A raiva contida, as expressões jogadas para dentro sem a emissão de um som, a inconformidade. A esperança num olhar de compreensão de uma mãe ausente (foi sonho? foi pesadelo? ou apenas o filme que vi na TV?). O desinteresse fingido de um pai (foi sonho? foi pesadelo? ou apenas o filme que vi na TV?), e a loucura que bate na porta. Um meio irmão que se afoga, a briga e a discórdia enquanto no alto a alma passeia alheia. Uma mistura de vinho caro e fumaça na boca, as cenas de um teatro fantasma repleto de subjetividade e terror.
Nietzsche nos ouvidos em conversas imaginárias com Shakespeare. Beethoven ou Bach ao fundo?
Filosofias demais, curvas e mais curvas no teatro dos moribundos. Zumbis perdidos que deixam de procurar por cérebros para apreender corações. A vontade de gritar os desaforos guardados, a mão sempre contida e aquele olhar de mãe que poderia dizer qualquer coisa, por que afinal a mensagem seria para mim, se nem a mãe era minha?
O gosto de pato, o cacau ainda quente na boca e os olhos perdidos que já não vêem nenhuma direção.
Não me venham com conversas moles e de falsa intelectualidade, de frases decoradas e textos repetidos. Falta de originalidade, de libertação.
Influências de toda gente em toda gente, falta autenticidade. Uma montoeira de carências e frustrações, os passos nas ruas e a solidão dos olhares. Não haverá um olhar como aquele, jamais haverá tanta solidão num brilho de olhar como aquele.
A escuridão absoluta e o profundo de uma alma que não se deixa conhecer, carregada demais de coisas que não são autênticas ou próprias, o cansaço em se buscar. As palavras não ditas, o confronto... confronto de monstros e titãs, de deuses e demônios, não sobrará sequer pedra no chão.
Eu queria me fazer ouvir, eu queria não calar. Calo, calo, silencio e deixo a hora passar.
As perguntas que ficarão sem respostas, quebram-se as correntes, soltam-se as amarras... que diferença e que sentido tem em se libertar um escravo que conhece apenas a escravidão?
A raiva contida, as expressões jogadas para dentro sem a emissão de um som, a inconformidade. A esperança num olhar de compreensão de uma mãe ausente (foi sonho? foi pesadelo? ou apenas o filme que vi na TV?). O desinteresse fingido de um pai (foi sonho? foi pesadelo? ou apenas o filme que vi na TV?), e a loucura que bate na porta. Um meio irmão que se afoga, a briga e a discórdia enquanto no alto a alma passeia alheia. Uma mistura de vinho caro e fumaça na boca, as cenas de um teatro fantasma repleto de subjetividade e terror.
Nietzsche nos ouvidos em conversas imaginárias com Shakespeare. Beethoven ou Bach ao fundo?
Filosofias demais, curvas e mais curvas no teatro dos moribundos. Zumbis perdidos que deixam de procurar por cérebros para apreender corações. A vontade de gritar os desaforos guardados, a mão sempre contida e aquele olhar de mãe que poderia dizer qualquer coisa, por que afinal a mensagem seria para mim, se nem a mãe era minha?
O gosto de pato, o cacau ainda quente na boca e os olhos perdidos que já não vêem nenhuma direção.
Não me venham com conversas moles e de falsa intelectualidade, de frases decoradas e textos repetidos. Falta de originalidade, de libertação.
Influências de toda gente em toda gente, falta autenticidade. Uma montoeira de carências e frustrações, os passos nas ruas e a solidão dos olhares. Não haverá um olhar como aquele, jamais haverá tanta solidão num brilho de olhar como aquele.
A escuridão absoluta e o profundo de uma alma que não se deixa conhecer, carregada demais de coisas que não são autênticas ou próprias, o cansaço em se buscar. As palavras não ditas, o confronto... confronto de monstros e titãs, de deuses e demônios, não sobrará sequer pedra no chão.
Eu queria me fazer ouvir, eu queria não calar. Calo, calo, silencio e deixo a hora passar.
As perguntas que ficarão sem respostas, quebram-se as correntes, soltam-se as amarras... que diferença e que sentido tem em se libertar um escravo que conhece apenas a escravidão?
Funeral
Ela abriu os olhos e viu que ventava lá fora, que o som que ouvia eram as janelas de madeira a bater e que o tempo lá fora já era outro, havia mudado enquanto ela dormia. E ela não teve vontade para levantar.
Em algum lugar, ela sabia, alguém se recolhia em dor, alguém ria, alguém chorava. Alguém tentava acreditar, alguém se iludia, alguém sonhava, alguém desistia. E ela não teve vontade de levantar.
O que ela era, sua história, seu sangue e sua vida batiam à porta, mas ela não queria mais se levantar.
Não era bom, não era ruim, não era dúvida ou certeza, simplesmente não era nada. Não havia saudade, vontade, não havia tempo, razão ou pesar. Ela já havia rido, chorado, já havia desistido e lutado. Já havia tentado. Não era tristeza, isso ela conhecia. Não era felicidade, isso já não existia. Ela só não queria mais se levantar.
Houveram dias bons, dias ruins. Houve vida e houve morte. Azar e sorte. O que ela procurava, sabia que não ia encontrar. Ela viveu. Como pôde e como quis, como soube e como conseguiu. As janelas de madeira batiam, ventava lá fora. E ela não se levantou.
Passaram-se horas, quase um dia inteiro, e então a porta se abriu num rompante. As janelas já não batiam, não havia vento algum. O ar estava parado, o silêncio alucinante. Naquele quarto já não mais batia coração algum.
E seguiu-se a agitação, a dúvida e o não saber como agir. Telefonemas, sussurros, o que fazer? Um cadáver no chão, uma vida que se viu esvair. Mas quem podia o último suspiro deter?
Aqui e mais além um lamento, uma indagação. Mas sobre sentimento, apenas ilusão.
Ela de cima a tudo assistia, e em desespero perguntava: “Ninguém se lembra do que eu dizia?”. Ela antes já sabia, e de seu jeito propagava “antes a verdade que uma vida vazia”.
Sua vontade era a de sacudir seus corpos ainda vivos porem inertes, de gritar e chamar-lhes a atenção. “O que ainda esperam com seus tolos flertes, com uma vida de ilusão?” “Não há amor que dure pela eternidade, não existe nem mesmo eterno sofrer, nem tão pouco a sonhada felicidade, existe apenas aquilo que se escolher”. “Acordem, suas tolas crianças perdidas, ninguém aqui neste enterro chora por mim. Suas almas estão de vocês escondidas, não se reconhecem a si mesmos e pensam conhecer o que é fim”. “Há época para sonhar, mas a vida é para crescer. Existe a hora de despertar, de lutar para vencer”.
Naquele enterro sem defunto, quem falava era silêncio e solidão. Cada qual sem ter assunto, só em si mesmo centrado e sem qualquer compreensão.
De nada valeu aquela vida ou morte, como ela assim pretendia. Cada qual só enxerga a própria sorte, ninguém percebeu o que de fato ali perdia.
“Vim para ser uma inspiração”, ela falava. Mas cada qual com sua solidão, não escutava. Seguiram-se os dias e os anos passaram, as almas permaneceram vazias, as pessoas se acomodaram.
E assim entre caminhantes e caminhos, entre anjos e demônios de astral, haviam amantes e carinhos que se perdiam e encontravam como numa eterna espiral.
O papel que ela havia deixado, jamais foi lido ou encontrado. Onde estava escrita sua alma e sua esperança, com um vento ainda voa e em silêncio de papel, dança.
Em algum lugar, ela sabia, alguém se recolhia em dor, alguém ria, alguém chorava. Alguém tentava acreditar, alguém se iludia, alguém sonhava, alguém desistia. E ela não teve vontade de levantar.
O que ela era, sua história, seu sangue e sua vida batiam à porta, mas ela não queria mais se levantar.
Não era bom, não era ruim, não era dúvida ou certeza, simplesmente não era nada. Não havia saudade, vontade, não havia tempo, razão ou pesar. Ela já havia rido, chorado, já havia desistido e lutado. Já havia tentado. Não era tristeza, isso ela conhecia. Não era felicidade, isso já não existia. Ela só não queria mais se levantar.
Houveram dias bons, dias ruins. Houve vida e houve morte. Azar e sorte. O que ela procurava, sabia que não ia encontrar. Ela viveu. Como pôde e como quis, como soube e como conseguiu. As janelas de madeira batiam, ventava lá fora. E ela não se levantou.
Passaram-se horas, quase um dia inteiro, e então a porta se abriu num rompante. As janelas já não batiam, não havia vento algum. O ar estava parado, o silêncio alucinante. Naquele quarto já não mais batia coração algum.
E seguiu-se a agitação, a dúvida e o não saber como agir. Telefonemas, sussurros, o que fazer? Um cadáver no chão, uma vida que se viu esvair. Mas quem podia o último suspiro deter?
Aqui e mais além um lamento, uma indagação. Mas sobre sentimento, apenas ilusão.
Ela de cima a tudo assistia, e em desespero perguntava: “Ninguém se lembra do que eu dizia?”. Ela antes já sabia, e de seu jeito propagava “antes a verdade que uma vida vazia”.
Sua vontade era a de sacudir seus corpos ainda vivos porem inertes, de gritar e chamar-lhes a atenção. “O que ainda esperam com seus tolos flertes, com uma vida de ilusão?” “Não há amor que dure pela eternidade, não existe nem mesmo eterno sofrer, nem tão pouco a sonhada felicidade, existe apenas aquilo que se escolher”. “Acordem, suas tolas crianças perdidas, ninguém aqui neste enterro chora por mim. Suas almas estão de vocês escondidas, não se reconhecem a si mesmos e pensam conhecer o que é fim”. “Há época para sonhar, mas a vida é para crescer. Existe a hora de despertar, de lutar para vencer”.
Naquele enterro sem defunto, quem falava era silêncio e solidão. Cada qual sem ter assunto, só em si mesmo centrado e sem qualquer compreensão.
De nada valeu aquela vida ou morte, como ela assim pretendia. Cada qual só enxerga a própria sorte, ninguém percebeu o que de fato ali perdia.
“Vim para ser uma inspiração”, ela falava. Mas cada qual com sua solidão, não escutava. Seguiram-se os dias e os anos passaram, as almas permaneceram vazias, as pessoas se acomodaram.
E assim entre caminhantes e caminhos, entre anjos e demônios de astral, haviam amantes e carinhos que se perdiam e encontravam como numa eterna espiral.
O papel que ela havia deixado, jamais foi lido ou encontrado. Onde estava escrita sua alma e sua esperança, com um vento ainda voa e em silêncio de papel, dança.
22 de abril
Um ano. E sem preparo, sem aviso, uma existência inteira dentro desse tempo. Uma pessoa no início, uma outra no fim. E depois de tanto, depois de tudo, torna-se difícil acreditar que pode haver mais. As coisas se acalmam, esfriam, encaixam e a realidade é vista sem a névoa que antes a envolvia. Havia incerteza na névoa, havia mistério, havia fascínio, expectativa e curiosidade. Surgiu a claridade, o vento varreu qualquer escuridão e a visão tornou-se nítida. A sensação é de clareza, limpeza, verdade. Mas podendo enxergar a paisagem toda, torna-se difícil acreditar que algo não está sendo visto, não se vê mistério, não existe dúvida nem o oculto. Tudo límpido. Como então, simplesmente, acreditar? Preto e branco. Falta-me cor.
(Lisboa, 22 de abril de 2010. - O que significava para a pessoa de antes escrever essa simples data? O que significaria a um ano atrás? Seis meses atrás? Dois? O que significa hoje? Antes, não havia. Tornou-se depois sonho, depois impossibilidade, depois, verdade. E mais? Há mais?)
(Lisboa, 22 de abril de 2010. - O que significava para a pessoa de antes escrever essa simples data? O que significaria a um ano atrás? Seis meses atrás? Dois? O que significa hoje? Antes, não havia. Tornou-se depois sonho, depois impossibilidade, depois, verdade. E mais? Há mais?)
Transitório
Nada é imutável, a nossa percepção das coisas por si só não é constante. Desgarrar-se de amarras existentes é assustador e ao mesmo tempo libertador. Reconhecer nossas carências e dependências afetivas é dolorido e também um passo para um caminho independente e incerto, onde você passa a ser o centro de seu próprio universo e adquire a habilidade de enxergar os outros de forma mais imparcial e completa. Consegue inclusive aplicar essa habilidade sobre você mesmo, percebendo e reconhecendo anseios existentes por caprichos seja do ego seja de orgulho ou vaidade. É no entanto assustador, pois perde-se de forma inerente o interesse por coisas que digam respeito aos mesmos (ego e vaidade). Passa a ser um objetivo primordial a realização de sua própria capacidade, intelecto e consciência em detrimento de todo o resto. Torna-se existente uma barreira intransponível entre seus interesses e os interesses alheios, e mesmo seus desejos sucumbem à força de sua busca por auto-realização interior. Você deixa de fazer parte do mundo externo para habitar em sua própria consciência, e ao mesmo tempo em que tal comportamento exerce algum medo e fascínio sobre as demais pessoas, exerce uma falta de interesse e paciência de sua parte para com os outros. É como passar a viver do outro lado de um portal, onde a interação entre você e o restante passa a ser extremamente limitada. E embora princípios e valores seus passem a ser mais autênticos e independentes de conceitos alheios, pode ser que aos olhos de outros você torne-se uma pessoa fria e ausente. As coisas assumem novos lugares, as prioridades alteram-se dramaticamente, porem a vida adquire um sabor diferente, como um caminho a ser trilhado, percorrido, conhecido e percebido, e não apenas sentido ou percorrido de forma aleatória e desprovida de razão. A vida, os relacionamentos e interações entre as pessoas não precisam ser difíceis, nem fáceis. Não há necessidade de complicar ou simplificar as coisas, basta percebê-las como de fato são, e com esse cenário em mente, agir de acordo com seu próprio estado de ser.
Hipóteses
Existem coisas que simplesmente não foram feitas para serem ditas. Não que sejam mentiras ou omissões, simplesmente coisas que não se dizem, não se contam. Algumas delas teriam talvez (e provavelmente) o poder de acelerar ou até mesmo alterar o rumo das coisas. E não pode ser assim. O máximo que podemos fazer é procurar encarar como possíveis todas as alternativas. Não sabemos tudo, não podemos saber. Tanto já se disse sobre a importância de cada instante, de que amanhã podem não estar mais conosco pessoas que nos são caras e etc e tal... Mas o oposto pode também ocorrer, e podemos ser nós a não mais estarmos presentes. Pode ser que alguém que nos seja próximo, especial, simplesmente não esteja mais a nosso lado, a nosso alcance. E nos veremos subitamente tomados por arrependimentos, por perguntas de como as coisas teriam sido se tivéssemos agido de forma diferente, e a dor que vai tomar conta de nosso peito virá cheia de culpa, de remorsos. Esqueça. Esqueça mesmo. Porque não poderia simplesmente ter sido de outra forma, não haveria possibilidade de que os acontecimentos pudessem ter sido conhecidos antes, não se pode pretender alterar o curso normal que as coisas devem ter. E mesmo se houvesse uma chance de que as coisas pudessem ser sabidas antes, algumas coisas não foram feitas para serem ditas, nem mesmo percebidas. Existem escolhas, existem cursos naturais à seguir, existe uma ordem na ordem do caos. Então se existe algo que deva ser dito e que é contido em nossa garganta, é apenas uma escolha, não uma razão para amanhã tornar-se culpa o silêncio reinado. Restrição e contenção, também são escolhas. Não é preciso que haja complicação, não é preciso que se carregue nas costas o peso das coisas que escolhemos fazer ou não. Se as coisas não correram de alguma forma específica, não há verdade que possa ser maior do que as escolhas feitas, não há conhecimento absoluto sobre nada, não se pode querer controlar o mundo, o amanhã ou as pessoas. Há que se lembrar dos risos, dos momentos especiais e do que foi vivido com aquilo que se sabia, com o que se sentia, com o que se queria. Não existem monstros que habitem as escolhas depois que foram feitas, se existem monstros, eles existem apenas no instante em que fazemos nossas escolhas. Então, enquanto houver tempo, enquanto houver chance, que as escolhas sejam reflexo de nossas verdades e não de nossos temores, que as decisões sejam fruto de nosso querer e não de nosso medo de fracasso ou incapacidade. Não há razão para culpa, para arrependimento, nem para remorsos em nenhum dia que esteja por vir. Está tudo bem, está tudo certo, está tudo como deveria estar. Fazemos as nossas escolhas de acordo com aquilo que conhecemos, e se pudermos conhecer nossos próprios desejos e agir de acordo com a nossa própria verdade, nunca haverá nada à ser perdoado, modificado. Está tudo certo, tudo como deveria ser. E não haverá culpa, não poderá haver. Algumas coisas simplesmente não foram feitas para serem ditas. As coisas são como são, e são como deveriam ser. Que nunca se carregue culpa alguma, vale muito mais que qualquer coisa o saber que aconteceram justamente as coisas que naturalmente, deveriam acontecer. Nada mais. Nada menos. Sem remorsos, sem dores, sem arrependimentos. Nunca. Nada foi omitido que um dia pudesse ter sido dito. Existe o que é. Só.
Escolhas
O que nos motiva a termos as atitudes que temos? A nossa vontade simplesmente ou a preocupação que temos com aqueles a nossa volta? Pois bem... Quando agimos de acordo com nós mesmos, até onde somos capazes de ir? Se temos claro nossos princípios, nunca passaremos por cima de outro ser humano para atingirmos nossos ideais (de acordo com os princípios que tivermos). Porém, se agimos pensando no bem que podemos fazer a outra pessoa, assumimos para nós mesmos uma responsabilidade que não nos pertence. A pretensão de agirmos para o bem do próximo independente do querer desse próximo é uma armadilha para nós mesmos. Ficamos presos na crença de que temos o poder sobre as atitudes do outro em nossas mãos. É uma ilusão. Bonita, mas ainda assim uma ilusão. Não há nada que possamos efetivamente sacrificar por uma outra pessoa sem que o preço recaia sobre nós mesmos, e um preço que geralmente não julgávamos existir. Percebermos a nossa impotência quando queremos muito ajudar alguém e não podemos pode ser cruel. Mais cruel ainda se viermos a perceber que a nossa intenção era afastar de nós uma responsabilidade, e acabamos justamente sem querer, pondo as responsabilidades que não queríamos ter em nosso próprio colo. Qualquer forma de imposição é também uma forma de encarceramento, de prisão, de limitar a liberdade alheia. Não precisamos ser sós para deixar as pessoas livres para suas escolhas. Também não precisamos de amarras ou correntes com outras pessoas para sermos individuais. Percebi que muitas vezes são as atitudes que pretendem ser as mais nobres que escondem as maiores formas de insegurança, de medo. E não há ninguém que seja obrigado a encarar seus medos mais íntimos, são apenas escolhas. E nenhuma escolha nossa podemos pretender ter em nome de outra pessoa (seria presunção ou arrogância demais), se escolhemos, escolhemos por nós mesmos. Que apenas isso esteja claro, já é o bastante.
Liberdade
Eu quero a inocência que carrego no meu coração. A doce ingenuidade de acreditar na vida, nas pessoas, no amor. Quero a beleza do instante e a certeza do momento presente. Como criança, quero sentir a curiosidade doce e intensa de quem vê tudo como se fosse pela primeira vez. Se eu tropeçar e se doer, que eu sinta toda a dor que sentir, sem preocupar-me em esconder minhas lágrimas. Se eu sentir medo, que não seja nunca o medo um impedimento para mim. Quero ao meu lado as pessoas que ao meu lado quiserem estar. Que seja pelo prazer da minha companhia, jamais pela necessidade, vício ou dependência. Que não haja a necessidade de certo ou de errado, uma vez que cada um é em si mesmo um universo com verdades distintas. Quero amar as pessoas que amo, independente de obter de volta ou não algum amor. Amo porque amo, e não porque espero. Que a vida seja o que é, e que seja sem limitações, sem projeções, sem contenções ou resignações. Eu quero ser quem eu sou, nada além, nada aquém. Ao meu redor, só quero aqueles que desejem estar a minha volta. Façamos um trato, e que este perdure. Não existem obrigações, não existem imposições. Esteja quando quiser estar. Seja você quem você for, quem é. Vá quando quiser ir, fique quando quiser ficar. Que não existam jogos de egos ou vaidades, que não existam explicações ou justificativas. Se eu não puder amá-lo por quem você é e pelo que você deseja ser ou ter, eu jamais serei capaz de amar verdadeiramente. Não desejo fazer do amor que sinto uma prisão que te separe do mundo, ou um espaço para limitar seus horizontes. Desejo que meu amor seja mais como uma brisa suave, que possa impulsionar o teu vôo. E só quando você sentir-se pleno de liberdade é que estar junto de alguém será um verdadeiro querer.
Reconheço
Se hoje fosse meu último dia de vida, eu teria pouco a dizer. Não aprendi grandes coisas, apenas algumas pequeninas e que hoje são tudo que possuo. Aprendi que quando tudo é vazio e que quando só há a solidão e desespero, muitas vezes basta apenas estender as mãos que alguém, mesmo que não seja quem você espera, há de oferecer-te alguma ajuda. Aprendi que poucas são as virtudes da vida, e nenhuma é maior ou mais importante que expressar a sua verdade, seja ela qual for. As pessoas têm uma tendência natural a enganar-se e a iludir-se, portanto, não espere adivinhos a sua volta, diga o que houver para ser dito. Aprendi que às vezes, erros são necessários para a nossa própria sobrevivência, e que muitas vezes o que para muitos têm imenso valor, para outros, não possuem valor algum. Aprendi que se há alguma coisa que se carrega por toda a vida, são os laços que criamos. Não haverá quem te carregue ao colo, nem quem sofra a tua dor, por mais que alguém queira fazê-lo. Hoje, sou a união das pessoas que passaram pela minha vida, sou as ocasiões em que fui humana e assumi meus valores e princípios por mais difícil que tenha sido fazer isso. Aprendi que as lições que a vida me trouxe, servem apenas a mim, por mais que eu deseje compartilhá-las. Descobri que posso viver sem muita coisa, mas que a vida me é impossível sem saber que as pessoas que amo estão bem. Aprendi que por mais amor que eu sinta por uma pessoa, essa pessoa jamais irá conhecer o tamanho desse sentimento, e jamais irá merecê-lo, a não ser que você dê o seu amor incondicionalmente e não espere nem deseje retorno algum. Se um dia todas as minhas palavras forem levadas ao vento, e só o que restar forem as minhas atitudes, espero ter, como tenho agora, orgulho de cada uma delas, por mais dor e sofrimento que me tenham trazido.
É difícil...
É difícil. Escolher um caminho, tomar uma decisão, implica em abrir mão de outro caminho, em assumir perdas. É ainda mais difícil quando se abre mão do conhecido para optar pelo que não se conhece, pelo que não se sabe. Não há muito em quê se apoiar. Não há segurança, não há conforto. Assumo os riscos e recebo em troca apenas a coragem e o orgulho superficial de saber que estou fazendo o melhor que posso, de saber que minhas atitudes são reflexos exatos das minhas verdades. Fico sem futuro, fico sem passado, perco as referências e sobra-me apenas o instante presente para viver. Sei, e ninguém mais tem como saber, o quanto custa abrir mão da segurança e assumir a perda das ilusões e sonhos ao mesmo tempo. Pergunto-me quando estou debaixo dos lençóis e ninguém me escuta, se possuo mesmo toda essa força, se existe dentro de mim toda a coragem que gostaria de possuir. Pergunto-me revirando em minha vida e em meu passado o quanto foram raras as minhas atitudes de real coragem, olho para a criança que eu era e vejo um brilho que dificilmente um dia voltarei a possuir. Tento construir caminhos abrindo trincheiras que não sei aonde podem me levar, mas como não abri-las??? Não há nada que seja mais significativo e importante que os sentimentos e a verdade que espalhamos pela vida enquanto vivemos. Nós um dia não existiremos mais, e só teremos deixado as atitudes que tivemos para aqueles que ainda ficarem. Sei que pode não haver recompensa, mas ainda assim de minha parte, haverá a luta. Sei que pode não haver um tesouro escondido atrás da montanha, mas ainda assim, de minha parte, haverá a escalada. Sei que posso perder tudo, inclusive a mim mesma durante essa busca, mas de minha parte, ainda assim estarei buscando. Não importa se o que me movimenta é uma confiança ou fé cegas, ou se é apenas minha obtusa teimosia. Afinal... que diferença faz o que me move, se afinal estou me movendo?
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