Agosto de 1983. Tinha eu 4 anos e 4 meses nesta foto, e quando minha irmã a enviou uns dias atrás, foi incrível ver e me lembrar daquele momento.
Férias na fazenda. Os cavalos (e se me lembro bem, também haviam jumentos) reunidos no mangueirão. O momento mágico quando a peãozada ia celar a tropa para manejar o gado para trocar a pastagem, separar os novilhos ou preparar para vacinação, ou castração (os detalhes do que era a atividade do dia, confesso não lembrar).
Mas lembro da minha preocupação: deve ser muito difícil para os animais comer uma espiga de milho inteira! E crua! Melhor debulhar o milho.
Os porcos também gostavam, embora o cheiro e a lama perto deles não fosse uma tarefa muito fácil, e não raras eram as vezes de "atolar" e perder um pé da bota ou do sapato.
Também havia um ligeiro receio dos ratos que podiam estar no palheiro, mas não eram medos - eram desafios incríveis!
E durante muitos anos, estes momentos das férias eram ansiosamente esperados. Durante um tempo, éramos todos a ir pra fazenda, reencontrar os primos e tios, viola, violão e cantorias à noite no terreirão todos juntos, a cantar olhando o céu enquanto escolhíamos as melhores montanhas de café cobertos de lona para deitar.
Havia alí um paraíso - e sabíamos.
Depois, já não íamos todos, ia eu com meu avô. Já não havia mais as cantorias, ou os primos ali pertinho, toda gente junta e reunida - mas havia ainda o paraíso.
Depois, lá pelos meus 17 ou 18 anos, deixei de ir. Namorado, faculdade, trabalho.
Não sei dizer ao certo quando foi a última vez que fui, mas sei que nunca saí.
Nem saí, e nem parece sequer distante o tempo de estar à cavalo pelos pastos, walkman nos ouvidos, cantando alto e sendo feliz. Ou distante os momentos de fim de tarde sentada com meu avô no terraço, olhando a velha porteira aberta, a casa em frente amarelada e vazia onde anos antes, brincavam ali primos tão queridos. O cheiro que vinha da fileira dos eucaliptos perto da garagem, ou do panelão de ferro no forno a lenha cozendo carne e fubá para os cães. Parece ontem.
Mas talvez tenham passado 20 anos. Faço as contas... 20 anos?! Talvez... talvez 25.
O mundo mudou, a vida mudou, o tempo mudou. Mas eu... eu acho que não. Ainda me fascinam aqueles cheiros, aquele medinho de ratos no palheiro, aquela preocupação de que deve ser difícil para os bichos comerem o milho com o sabugo.
Não sei se ainda sei selar um cavalo como deve ser, apertar a barrigueira, colocar o freio sem magoar e ter os pés no estribo sem ficarem presos se eu for cair.
Talvez, os últimos 20 ou 25 anos tenham me feito duvidar mais das minhas capacidades do que especialmente desenvolvê-las. Hoje, me pergunto se eu saberia debulhar uma espiga, não me lembro de ter tido qualquer dúvida no momento em que esta foto foi tirada, onde simplesmente, fui fazer. Quem sabe, ainda posso ensinar à mim mesma o que o tempo me deixou esquecer...
Um comentário:
Tão linda e tão certeira. Bjs querida! Ni
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